Poros e Cendais


Sou mais versão do que fato,
bem mais talvez que decerto;
indecifrável retrato,
num álbum jamais aberto.
Nunca fui Sol, só deserto.
Só fui supérfluo e aparato.
Trago um discurso barato
onde me finjo liberto.
Solenemente abstrato,
sou bem mais longe que perto.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 00h31
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Era pra ser de repente,
sem que se visse e escutasse;
passasse em quase tangente,
bem rente, mas não tocasse.
Melhor se fora fugace
— prelúdio pra quando ausente —
restasse a voz reticente
(no benefício do impasse).
Era pra ser, tão-somente,
meu rosto sem tua face.
 
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 20h59
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Sempre dói mais o que invento,
do que de verdade sinto.
Esse, porque sei momento;
aquele, em dobro, pois minto.
Dói, porque, falso, consinto
que seja dor, sendo alento.
Finjo na calma um tormento
que nele próprio desminto,
pois, se disfarço, acrescento
uma dor que sequer pressinto.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 08h39
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Pouco importa poente ou se nascente,
se cavalgo a poeira ou piso o céu,
vou no rumo que aponta para o léu,
sigo os passos que deixo à minha frente.
Ser ou não é de todo indiferente,
aprendi a cunhar no azar a sorte,
quando sei-me por fraco, finjo o forte,
eu sou eu quando um outro eu invento,
cavaleiro das nuvens me apresento,
dia e noite ao sabor do vento norte.*
 
 
Antoniel Campos
 
 
* mote tomado emprestado daqui:
 


Escrito por AC às 17h37
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MEU CANTO
 
 
 
Meu canto eu invento inteiriço e pedaço,
no espaço que é disso: o cinzento — se tanto.
Fracasso o feitiço, alimento de pranto,
enquanto acrescento sumiço e cansaço.
Transplanto o momento se omisso lhe traço,
aumento o quebranto e desfaço o seu viço,
tormento o acalanto, me enlaço e me enliço,
me enguiço e me amasso e me planto no vento,
cobiço o estilhaço por manto e ungüento
no intento de um canto onde nasço demisso.
 
Rebento esse canto e renasço remisso
e nisso me embaço — no entanto a contento,
maciço mormaço de espanto aparento
e atento adianto meu passo enfermiço.
O alento suplanto e em bagaço aterrisso,
decanto o andamento e espreguiço o compasso,
o canto que eu tento é só isso: erro crasso,
refaço o serviço se isento me encanto,
no abraço postiço apresento o não-canto
que eu canto e me ausento e permisso me faço.
 
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 05h42
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