MEU CANTO
Meu canto eu invento inteiriço e pedaço,
no espaço que é disso: o cinzento — se tanto.
Fracasso o feitiço, alimento de pranto,
enquanto acrescento sumiço e cansaço.
Transplanto o momento se omisso lhe traço,
aumento o quebranto e desfaço o seu viço,
tormento o acalanto, me enlaço e me enliço,
me enguiço e me amasso e me planto no vento,
cobiço o estilhaço por manto e ungüento
no intento de um canto onde nasço demisso.
Rebento esse canto e renasço remisso
e nisso me embaço — no entanto a contento,
maciço mormaço de espanto aparento
e atento adianto meu passo enfermiço.
O alento suplanto e em bagaço aterrisso,
decanto o andamento e espreguiço o compasso,
o canto que eu tento é só isso: erro crasso,
refaço o serviço se isento me encanto,
no abraço postiço apresento o não-canto
que eu canto e me ausento e permisso me faço.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 05h42
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