Poros e Cendais


 
esse ato, esse instante — essa arte? — esse
amargo da palavra fim.
como se você passasse e eu não visse: dói.
é como ouvir acordes compartilhados
nunca mais unidos. inverno e verão,
onde era: inverno ou verão: (os dois, juntos.)
era essa coisa de qualquer coisa haver de ser compartilhada.
aquele rito, aquele ensaio, aquela sina, aquela rotina
querida e esperada. aquelas manhãs e tardes.
aquela espera sabendo do encontro.
aquela certeza que sofria nas esperas.
(aqueles surtos. aquela — com licença da palavra — vida.)
era isso que ora me diz: é.
é essa coisa de suspenso de ruptura de final que diz início.
é esse instante — a certeza? dói. — de não mais início.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 00h16
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Ao Que Diz-me O Ciúme me Convenço
 
 
                           "Os ciúmes sabem mais que a verdade"
                                           Gabriel García Márquez
 
 
É de pedra a certeza que eu suponho.
É real toda a trama que eu invento.
É de encaixe perfeito o que foi sonho.
É-me audível o que diz teu pensamento.
 
Se disfarça o punhal meu ar risonho,
é porque mais prazer dá-me o tormento
em querer, no que é claro, o mais medonho
eu saber para o meu convencimento.
 
Se é real a certeza que eu suponho,
ao que não resta dúvida dou azo
e ao incerto, decerto lhe pertenço.
 
Pois é pedra essa trama que eu invento:
ao que diz-me a verdade, pouco caso;
ao que diz-me o ciúme, me convenço.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 07h53
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Divulgação

essa aí ousa declinar a mão esquerda em suposto  tanto faz, como se o ângulo de repouso pensado não o fosse. quer deixar os cabelos — loiros — parecerem assim como num lance fortuito do acaso. e olha assim para um nada, como se para mim não fosse esse olhar. e ela quer deixar transparecer um sorriso assim meio podia ou não podia ser, entende? (perceba como a franja — eu digo: propositadamente — beija a sobrancelha). e ela se senta assim meio largadona. e eu volto às suas mãos e digo: juro que posso lhe sentir o cheiro e dizer qual perfume. e esse "U" que vai de ombro a ombro num deixar só na medida nem um mais nem um menos: só o que deve. falo dos peitos dessa mulher. dos peitos de sharon. eu que tantas vezes os tive rentes à barba de dois dias e agora nessa de três só minhas mãos a alisá-la... como quem diz: nossa, como você mudou. mas ela olha de lado como se aqui eu não estivesse. mas eu estou e digo a ela, a você: são inesquecíveis.
 
AC


Escrito por AC às 01h02
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Um segundo e não mais. Basta um segundo.

Nada mais que um segundo — um só se basta.

Basta o tempo que a um segundo basta

para ser todo tempo num segundo.

E que baste um segundo de um segundo

para o tempo do tempo não ser mais.

Basta o tempo que o tempo é. Não mais.

E ao segundo um segundo do seu tempo,

Baste um tempo ao segundo pra ser tempo,

Baste ao tempo um segundo. Nada mais.

 

 

Antoniel Campos

 

 

 



Escrito por AC às 06h55
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CONTRACANTO
 
 
Eu canto se não sinto o que aparento
e invento um contraponto, se nem tanto.
E enquanto me desmonto em fingimento,
sustento o que pressinto em contracanto.
 
Suplanto esse confronto e me arrebento:
me enfrento, me desminto e me quebranto.
Por manto, em labirinto me apresento:
me ausento, nada aponto e me decanto.
 
No entanto, me remonto e me acrescento.
Sedento de absinto me transplanto,
conquanto o desaponto seja alento.
 
E ao vento eu seja extinto, sem espanto,
sem pranto, sem apronto e desatento,
pois lento é que, sucinto, me levanto.
 
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 23h44
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Celebra-se aqui o provisório.
O breve, o transitivo, o fugidio.
Prefere-se o fugaz e o ilusório
e tudo o que faz tudo mais tardio.
 
Certeza não se quer. Quer-se o vazio.
Do cerne, nada mais do que envoltório.
Não há seta a seguir. Só há desvio.
O sim, só se num sim contraditório.
 
Que tudo seja parco e irrisório.
Que nada seja fim, mas extravio.
Que seja, o que for fixo, migratório.
E o que se diz valer, seja baldio.
 
Só nasça o que de si for predatório.
Celebra-se aqui o desvario.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 16h31
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