Poros e Cendais


TUDO NADA
 
 
 
O dois que ora divide, ora duplica.
O fogo ainda arde e é já fumaça.
O amargo a mesma língua dulcifica.
Nem sempre o sempre é muito — tudo passa.
 
O último leitor se chama traça.
O tempo doutros tempos se edifica.
A boca que diz fez dizia faça.
O sempre morre o sempre — nada fica.
 
Somente quando tudo se erradica
e faz-se do vazio a argamassa,
o sempre se diz sempre — tudo fica.
 
E aos olhos tudo o mais será mordaça.
E à fala nada mais se clarifica.
E ao sempre sempre o sempre — nada passa.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 15h11
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MANDAMOS
 
 
Quem disse dessa blusa, de sua pertinência e beleza, do seu talhe nem um dedo acima nem abaixo, senão o olho que as abaliza?
Elas tentam. Toda hora. Se não nos percebem, muda tudo. Lêem em nós outros, ainda que não falemos: "não ficou muito legal...", lêem também: "massa, essa roupa...", então elas usam.
Cabelo.
O cabelo dela é nosso (quero-os curtos. Agora, longos).
Tuas sobrancelhas têm a medida do que eu digo sim. Seria outra, se sim eu não dissesse.
Tua calcinha não é maior ou menor senão quando eu digo à tal medida: que tesão.
Tens o cheiro do perfume que me agrada.
Seria outro, se do anterior eu nada dissesse.
És naquilo do que eu falo ou calo.
Serás magra ou cheinha se o meu olhar te disser: assim, sim; assim, não. Ainda que eu não fale. Melhor: ainda que eu me cale.
Não és dona de tuas unhas, pois te digo a cor e o tamanho. Não digo? tudo bem, mas adivinhas o que eu digo ou penso.
Nada há em ti sem que eu não aprove. Te possuo.
Não és dona do modelito (o da hora!) dos teus óculos sem que eu não diga: gosto do modelo dos óculos que usas.
Quero o teu cabelo ruivo: dás-me ruivo o teu cabelo. Preto. Dás-mo preto. Loiro, loiro.
Olha pra mim e me diz se eu minto.
Tu és do jeito que me apraz.
Ou seja, do jeito que somos para ti.
 
 
Antoniel Campos
 


Escrito por AC às 23h51
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Num Debate Sobre Poesia

  

Por via das dúvidas, diga não e sim.

Ao "como assim?", responda: "é o que penso.",

assim, peremptório e o mais denso

possível (vale um certo ar de fim).

 

Ao "Forma e Conteúdo", vá por mim:

não queira acordo. Nada de Consenso.

Com certo enfado, encerre: "É tema extenso

por demais pra ser discutido assim..."

 

(isso mesmo: bem reticencioso.)

Na mesa, aparente o mais cioso

dentre os demais — "seus irmãos, seus iguais".

 

Seu timbre, o da mais fina melopéia.

Pós aplausos, acene pra platéia

com a tez do mais humilde entre os mortais.

 

 

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 20h27
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