 |
|
|
ESSES
Esse estigma, esse ranço, esse receio. essa cólera de ironia travestida. essa patrulha, essa partilha, esse guia, essa vontade dos caminhos da poesia. esse achismo, esse ismo, esse outro ismo, esse atavismo em vã guardismo: esse fascismo. esse apartheid, esse dedo indicador, essa receita, essa doença, esse doutor. essa palavra, essa não, essa palavra. esse escaninho, esse jeitinho bonitinho. essa postura, esse salto, essa impostura, essa rede de sim-sim, essa costura. essa estratégia, essa falácia, esse tribuno, esse quartel, essa polícia, esse coturno. essa salada, essa sopa, essa lavagem, essa ordem de beber goela abaixo. esse arauto apocalíptico e demiurgo, esse moicano derradeiro desse burgo. esse poema de outdoor e passarela. essa tramela, esse embuste, essa panela.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 21h11
[ ]
|
DOR-DE-COTOVELO
(ouvindo "Nervos de Aço")
Foi mesmo por estar tão magoado ainda que refém do teu fascínio, que ouvi por toda a noite Lupicínio, falando ao meu peito machucado.
Sozinho... sem um amigo que me escute. Apenas o silêncio da tristeza. Dois dedos batucando sobre a mesa e o gelo tilintando no vermute.
Calado o peito grita de dor tanta e enquanto de ingrata eu te chamo, ao mesmo tempo digo que te amo, na voz que, rouca, trava na garganta.
O imenso desespero alonga a noite, procuro evitar qualquer lembrança, mas sinto a tua mão que me alcança e o afago do passado hoje é açoite.
Soluço... não tem jeito... e desatino. Vontade de abraçar-te neste instante, viver de novo o beijo — tão distante... contigo escrever um só destino.
Pedir perdão por tudo o que eu fiz, e até do que não fiz pedir também. Ouvir da tua boca "és meu bem!" e ser pra sempre o homem mais feliz. (...) Preciso me deitar, já amanhece. Sonhar tendo o teu corpo por regaço, pois sei que até dormindo, se te abraço, teu corpo, mesmo em sonho, me aquece.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 10h24
[ ]
|
CONTRA
Contra a ordem, o rito, o senso, o correto e o seu primado; contra quando me convenço que é errado o errado.
Contra tudo que é consenso — sim, por favor, obrigado. Contra quando contra penso ao que foi contra pensado.
E por ser do contra feito,
tenho parte do meu peito
da outra desencontrada.
Mas se sou contra, contudo,
uma parte é contra tudo;
a outra, a favor de nada.
Antoniel Campos
~~~
Um presente que ganhei da amiga Silvana Guimarães, editora da revista eletrônica Germina Literatura. Sil, querida, muito obrigado!
Confiram:
http://www.germinaliteratura.com.br/erot_junac.htm
Escrito por AC às 09h45
[ ]
|
Com meus dedos em L fiz moldura, e enquadrando o teu rosto, fiz retrato; com teus dedos, contínuo e pizzicato, escrevi tua boca em partitura. Do teu corpo eu me fiz toda a textura, e do meu, sem censura, te fiz dona. Cavalguei-te e, de mim, foste amazona, sem saber quando em cima, quando embaixo, pois te encaixas tão bem quando te encaixo, que a noção cima/embaixo me abandona.
Cortesã, quero assim. Quero a madona — lingeries e cendais onde eu me enfaixo —, ser no meio, por sobre e por debaixo, mergulhar sem querer mais vir à tona. Tuas pernas nos braços da poltrona, minhas mãos soerguendo-te a cintura. tu autora da lúbrica pintura, eu ator principal de cada ato, eu a fome servida no teu prato, tu a causa de toda essa loucura.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 11h39
[ ]
|
MAS VENS
como se todo o tempo já tivesse transcorrido — porque tudo passa, se tocamos, vens com o teu bafio, o teu hálito, tua aura e teu roçar, nessa tua onipresença, ora dentro, ora fora, tanto e toda em mim.
(a medida do tempo é bem mais clara na ausência.)
à margem de ti, me vejo rude. tosco. incompleto. êxul de mim, naquilo em que mais me vejo. e tão poucas são as coisas em que me percebo.
mas vens. como a dizer de um capricho urdido adredemente, um experimento, uma cilada, aferindo-me com o teu esperômetro, a medir meu quantum de permanência.
(tola... como se coubesse a mim traçar novos rumos, trair-te, abandonar-te.)
adentrar nos teus domínios — a mesma sensação sempre renovada, é como se chegar em país estrangeiro e lá encontrar pedaço de seu. tudo compreender, nas múltiplas linguagens que me trazes à mesa.
mágico momento, singular instante o desse encontro, em ti, eterna estrangeira e eterna cúmplice, conheço-te cada rua,
[cada rincão, qualquer espaço, à vista
primeira, como se antigos fossem os nossos abraços.
(e tão antigos são os nossos abraços.)
de verdade, não sei se sou eu que te esqueço, ou se és tu que me abandonas.
[mas sei que todo esquecimento
e abandono são efêmeros. sei também que deve ser assim porque, às vezes, me sufocas, não dás trégua, e eu, bem o sei, por vezes faço igual.
(o que seria dos encontros sem a saudade?)
mas vens. e sabes como chegar. em vão disfarças, porque é do teu querer que todo disfarce seja em vão. pões uma venda na face, à guisa de ocultar-se. e ris. e ris porque sabes que a mesma venda te serve por bandana, inútil cendal,
[máscara fugaz em que estampas:
sou eu. na linearidade em que te mostras, percebo-te em ondas. nas ondulações, o teu linheiro percurso. e caminho no teu seguro caminho.
e os antigos abraços se renovam.
e vens.
e ficas.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 16h37
[ ]
|
SEDE
Quero a mão por debaixo do agasalho
pra sentir-me em teu corpo por escrito.
Nos teus poros, a rua onde eu habito.
Tuas curvas, saber de cada atalho.
Quero ter-te da cama ao assoalho
e encostada ao teu quadro na parede.
Quero o espelho, a varanda e quero a rede,
quero antes, no meio e depois,
um só gosto na sopa de nós dois
: uma sede matando a outra sede.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 01h52
[ ]
|
DERRAME
Àquela e não a qualquer da hora - e agora eu vou dizer a ela.
àquela, que o meio-de-campo é breve - não ela.
àquela, mas num dizer sem dizer. só a ela.
àquela, que o resto é longe, ela é perto.
não a qualquer de agora, àquela.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 05h46
[ ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |