 |
|
|
ora, ora...
como se possível fosse eu dizer o lado e de súbito alguma coisa se erguesse entre as metades — se metades houvessem. como se fosse plausível imaginar algo além do uno. do mesmo corpo. porque iguais são as vontades, as certezas, os medos. como se o que eu quisesse fosse parte do que eu desejo. não é. é além. porque tudo em mim é uma palavra que diz sim. tudo o que eu sinto traz a marca do que é sempre. e eu vejo essa manhã que da janela invade o quarto e é você o sol que em todas as manhãs pinta o ontem e o amanhã de hoje. e, como o sol não sabe de janelas, também não sei de lados. lá e cá é tudo assim: aqui.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 08h57
[ ]
|
os teus pés
início e fim do que miro
tudo o que eu sinto
— um tiro
o desejo do toque
— minto!
o do beijo.
<~~~>
tão claro é o teu sim
que, por mais que digas não,
menos não dirás a mim
o que dói é o precipício
tingindo o que é início
com as cores do que é fim.
<~~~>
esse riso largo
esses dentes
essa boca
teus cabelos
o que é mais seguro?
tê-los
ou
vê-los?
<~~~>
tu és o mar
sou a areia
ou seja:
sobre mim deslizas
e eu, da orla,
te observo inteira.
<~~~>
sentes tanto
e, no entanto,
ocultas muito mais
quero ouvir-te os sins
saber-te os nãos
e entre o não e o sim
teus ais.
<~~~>
qual o gosto do teu ombro?
qual o gosto do teu queixo?
sabes do meu queixo e ombro?
deixo.
<~~~>
se sempre eu te evitei os olhos
que dizer sentir-te o cheiro?
tampouco imaginar-te lua
muito menos sabê-la travesseiro
me perturba a tua imagem nua
sou-me em duplo se te sou inteiro
<~~~>
beija a tua boca a minha boca
se há noite, vinho e chuva
que tudo lembre o mar
e cada gosto o de maçã e uva
cada partida, voltar.
<~~~>
Antoniel Campos
Escrito por AC às 16h29
[ ]
|
que eu me derrame.
invisível sou e que invisível eu permaneça. que eu seja. nenhum grito além da boca. ser isso: tentativa de fala. arremedo de sentir. mas, claro, sempre esse riso por último — por que sair mal na fita?
sei disso: eu vou ligar pra você na madrugada, eu vou lhe acordar, eu vou lhe dizer que depois de você ninguém, eu vou mandar flores pra você — eu vou levar as flores. eu vou ser sempre presença. eu vou ser o gosto do café e dentifrício. eu vou ser a esquina, eu vou ser o vermelho, o amarelo, o verde dos seus passos e seguires. o seu primeiro bom dia. eu vou tirar seus pontos. vou ser peeling. eu vou ser a sua boca. eu vou ser os seus cachos. eu estou na sua alma. eu estou na sua pele, na sua boca, na sua boca. eu estou na sua textura. no seu corpo. eu sou agora olhando você. eu sou quem lhe diz: eu sou seu homem. sou essa noite de sexta para sábado. sou essa saudade imensa, sou desejo das coisas pequenas, coisas fortuitas, sou aquele olhar que podia ser e que olhou o lado, sou quem queria estar aí, sou eu esse aqui de longe. eu sou quem lhe diz: eu sou seu homem.
AC.
Escrito por AC às 23h24
[ ]
|
entre, fora, sobre, embaixo nas laterais e no centro bico do peito no peito beijo de boca epicentro garapa tecido leito coxas e pêlos riacho
cheiro de fêmea e de macho gangorras no baricentro ora largo e ora estreito ora de longe, ora dentro e o branco no novo efeito do cobre ruivo do cacho
o teu senhor e capacho o teu raio e circuncentro o teu esquerdo e direito manteiga, queijo e coentro todo sabor, todo jeito inteiro, de cima a baixo
Antoniel Campos
Escrito por AC às 16h11
[ ]
|
Amo-te porque não sei porquês, num quanto que só sei que não sei quanto. Amo-te no duplo do que vês e enquanto assim não vês, amo no enquanto. Amo-te na calma e no espanto de que não mais assim ame talvez. Amo-te de sempre e em todo canto que exista, que existiu ou não se fez. Amo-te sem quandos, quais e quês, sem se, sem todavia e sem porquanto. Amo-te sessenta dias/mês. E em cada santo dia e dia santo, amo-te em todos de uma só vez e em um de cada vez amo outro tanto. Antoniel Campos
Escrito por AC às 10h50
[ ]
|
OS ÓCULOS ESCUROS (frag.06)
Se não vens — e esse vir a tudo alcança,
devo eu te dizer que fui espera?
(e em qual tom? de desdém ou de cobrança?).
Em desdém, meu sentir se dilacera,
em cobrança, meu verbo te sufoca,
— em nenhum o que eu sinto prepondera.
E o dizer — se e quanto — se desloca,
no afã de ser dito sem ser dito,
como quem regateia, pede e troca.
"Eu não quero mostrar" — eis o meu grito,
mas que ouças tal grito que me cala,
: eis as senhas nas quais me sou descrito.
Tudo o quanto me oculta me assinala,
na pergunta que deixo eu me respondo
e o que esconde-me a língua o corpo fala.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 18h49
[ ]
|
apresso a passada passo a passo. aonde vou, se tu és todo o espaço?
Antoniel Campos
Escrito por AC às 16h08
[ ]
|
CERTEZA
E quando menos você esperar,
não chegarei de surpresa.
Não virei no novo
(essa coisa antiga).
Nem no que me diga,
nem no que me esconda.
Nada que pergunte.
Nada que responda.
(Nada de surpresa.)
Mas qualquer cantiga
ou qualquer perfume.
Tudo o que abriga
o lume da certeza.
Chego nunca ausente
e sento à sua mesa.
Tudo no presente.
Tudo sem surpresa.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 23h48
[ ]
|
Quero o encontro dos cálices guardados,
berimbar capoeira ouvindo jazz,
em degraus ver os rostos, mil quadrados,
a fumaça de azuis, chopp e pastéis.
Ter poemas a troco de uns trocados,
nesse A4 eu dizer o que me és,
ver em curvas e retas teus riscados,
mas guardar, dessa vez, esses papéis.
Quero inícios com fins mais demorados,
quero o beijo na boca e nos teus pés.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 23h21
[ ]
|
Digo não e por dentro digo sim,
tudo em mim é perfeita contramão.
Sou canção começando pelo fim,
estopim onde acendo a escuridão.
Guardião desse nada de onde eu vim,
folhetim não escrito pela mão,
sou clarão incontido no nanquim
e o latim exilado do sermão.
Sou senão em sinônimo de assim,
sou enfim o meu sim que me diz não.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 23h12
[ ]
|
Eu sou esse que diz no início: "eu sou". Mais esse que no início diz: "mais esse". Eu sou esse terceiro em que eu estou e o quinto que do quarto se fez desse.
E em cada um de mim, sou quem passou. E fui quem sou e além me vejo nesse. E em tanto ser um só, não me restou sequer um que comigo parecesse.
Não sei se sou de fato ou sou de vento. Talvez eu só me sinta em pensamento, no espaço entre o lembrar e o esquecer.
Pois sou, em sendo um só, esse que eu tento fazer dizer-me em outros que eu invento, e em sendo em outro eu, eu eu não ser.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 16h13
[ ]
|
QUE É DE SILÊNCIO O DESENGANO, É FATO.
mesmo nas distâncias - todas elas, só a tua presença é a constante. se muitos vêm, todos vão. e o tempo que medeia a vinda da partida, aquele em que tudo é vendaval, só o teu é para mim a brisa leve, porque tu te antecedes à chegada, porque tu te deixas à partida.
daqueles, cada abraço é irmão gêmeo do punhal. só o teu que não me fere.
sem se nem mas, me identificas. só tu não vais, só tu me ficas.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 16h28
[ ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |