Poros e Cendais


Pela concisão, contra a concisão.

 

 

Então, daqui pra frente — quem foi mesmo o guardador dos caminhos e em qual data? —, a poesia será concisa. E ai daquele que ousar a contramão. Ansioso, prolixo e verborrágico ficarão de boa monta aos recalcitrantes. E haja o poeta iniciante ir atrás dos próximos ditames dos “iniciados”, os guardadores dos caminhos. E tolhe aqui, tolhe acolá. A tesoura passa a ser mais importante do que a palavra. Acredita piamente que o seu poema alcança a poesia pretendida pelo guardador, qual seja, A Poesia. Quebra o verso na metade com a rapidez de um “enter” (o poema ficara diminuto demais...), como se isso, por si, agregasse valor ao já concebido. Como se a disposição espacial do verso no poema estivesse divorciada da leitura e do ritmo que ele, autor, gostaria de dar. Mas isso é outra história. Voltemos à concisão. O prejuízo ao entendimento da mensagem é totalmente desprezível, face à canalhice inventada de que tudo o que se pretende poema, há que ser conciso. Ora, o que é concisão? Por ventura algo relacionado à extensão do poema? Lógico que não, dirão os prestimosos teóricos. Tem a ver com a idéia, o insight, o flash, a fagulha poética captada pela lente do poeta, dirão. Ponto pacífico até aí. Mas é aí, justamente, onde quero chegar. Porque esse cânone esdrúxulo que se quer impor na poesia, esse fascismo indefensável, tem sido responsável pelo que vemos por aí, uma proliferação de poemas “angustiados”, com duas vertentes: a primeira, pela confusão entre concisão e extensão, o que leva a poemas microscópicos; a segunda, e a mais grave, pela abordagem apenas de uma idéia, a idéia central, com a pressa, a angústia para dizer de uma vez aquilo que foi captado, aquilo em que reside poesia. Aí é o poeta que se tolhe, não o poema, pois abre mão da possibilidade de surgir outros momentos no poema, igualmente válidos, igualmente poéticos. Por quê? Porque o sentimento de extensão está interligado, no entendimento dele, à abordagem única da idéia captada. Pode-se fazer poesia escrevendo poemas diminutos em extensão e abordando um único tema? Óbvio que sim. O que não se pode dizer é que toda poesia tem que ser assim.

Outras canalhices foram inventadas, como a não-adjetivação do poema e a necessidade imperiosa da substantivação do poema, como se o escritor estivesse fadado a abrir mão de suas ferramentas de trabalho — as classes das palavras —, ou como se um pintor estivesse proibido de usar certo tipo de pincel, ou um entalhador só pudesse usar o buril e nunca a goiva, ou um músico de não visitar certos ritmos. Mas isso, também, é outra história. Escrevamos aquilo que tivermos de escrever, sem nos preocuparmos com extensão ou quantidades de idéias abordadas. Que isso seja conseqüência e não causa do poema. E tenhamos a convicção de que não há guardadores dos caminhos da poesia. Cada poeta constrói o seu.

 

Antoniel Campos

 



Escrito por AC às 20h33
[   ]




Escolha a alternativa correta:

 

1.        Quando chove:

a)       – (  ) abro a janela para que você entre com a chuva;

b)       – (  ) saio à chuva porque sei que te encontrarei lá;

c)       – (  ) conto nas gotas de chuva os beijos que te darei;

d)       – (  ) todas as alternativas anteriores.

 

2.        Quando anoitece:

a)       – (  ) espalho pela casa almofadas de cetim;

b)       - (  ) ponho o vinho pra gelar, acendo os castiçais e fico ouvindo um fado;

c)       – (  ) troco de roupa e me preparo, pois sei que você vai chegar;

d)       – (  ) todas as alternativas anteriores.

 

3.        Quando bate a saudade:

a)       -(  ) sei que você também está sentindo minha falta;

b)       –(  ) releio teus escritos e já não sei se são teus ou meus;

c)       –(  ) quero correr ao teu encontro;

d)       –(  ) todas as alternativas anteriores.

 

4.        Quando ouço uma canção:

a)       –(  ) danço seguindo teus passos, com meu corpo junto ao teu;

b)       –(  ) sinto na melodia o teu canto e na letra ouço tua voz;

c)       –(  ) uma lágrima molha meu rosto;

d)       –(  ) todas as alternativas anteriores.



Escrito por AC às 00h20
[   ]




5.        Quando escrevo um poema:

a)       –(  ) você é o motivo;

b)       –(  ) vejo no papel tua imagem em ‘background’

c)       –(  ) a mão treme e o coração dispara;

d)       –(  ) todas as alternativas anteriores.

 

6.        Quando não te encontro:

a)       -(  ) me perco;

b)       –(  ) ligo pra você;

c)       –(  )vou dormir pra te encontrar em sonhos

d)       -(  )todas as alternativas anteriores.

 

7.        Quando te encontro:

a)        -(  ) não sinto o tempo passar;

b)       –(  ) não há distância;

c)       –(  ) quero te cobrir de beijos, te abraçar, cantar pra você e te dizer um poema com meus olhos;

d)       –(  ) todas as alternativas anteriores.



Escrito por AC às 00h18
[   ]




8.        Quando ouço a tua voz:

a)       -(  ) emudeço;

b)       –(  ) ouço, ao fundo, sons de harpas, liras, cítaras e flautas;

c)       –(  ) viro criança e só sei sorrir;

d)       –(  ) todas as alternativas anteriores.

 

9.        Quando digo que te pertenço:

a)       -(  ) é porque sempre pertenci a ti;

b)       –(  ) estou sendo redundante;

c)       –(  ) é porque só existe você em minha vida;

d)       –(  ) todas as alternativas anteriores.

 

10.     Quando digo que te amo:

a)       - (  ) digo o que sinto;

b)       –(  ) sinto o que digo;

c)       –(  ) é como se dissesse a primeira vez;

d)       –(  )todas as alternativas anteriores.

 

 

Antoniel Campos.

 

 

 

 

 



Escrito por AC às 00h17
[   ]




constelação, cabala:
no início tudo exulta
: o seu coração fala
meu coração escuta.

o ter-se em que se iguala
dois sumos numa fruta
: o seu sorriso fala
o meu sorriso escuta

o ir-se que se instala
mas antes fere e amputa
: o seu silëncio fala
o meu silëncio escuta



Antoniel Campos


Escrito por AC às 10h51
[   ]




TE VEJO

Num começo de mar
Num findar de Estação
No perfeito do par
Na canção da canção

Numa reta de rua
No quadrado da cama
No redondo da lua
E na chama da chama

No início do verso
No final do poema
Na palavra universo
Que é você e meu tema

No carinho que faço
No que fazes em mim
No espaço do espaço
Entre o não e o sim

Nesse gole de vinho
Nesse som de bolero
No dançar coladinho
Nesse quero-te-quero

Nessa mão, nessa saia
Nessa coxa que aliso
Nessa língua que ensaia
Em lamber teu ouvido

Nesses olhos fechados
Nessa boca entreaberta
Nesses peitos colados
No meu peito que aperta

No teu corpo encostado
Nessa fria parede
Nesse lábio sugado
Nessa mútua sede

Na cintura que abraço
No veludo da fala
No batom que desfaço
No tapete da sala

Nesse beijo de boca
Ou no beijo invertido
Onde a voz cala rouca
Num falar sem sentido

Nesse corpo suado
Nesse encaixe perfeito
No dançar ritmado
No cabelo desfeito

Nesse sobe que desce
Nesse desce que sobe
Onde tudo se pede
Onde tudo se pode

Nesse homem que geme
Nesse macho que urra
Nesse corpo que treme
Nesse lobo que uiva

Nessa mulher que eu amo
Nessa santa que reza
Nessa fêmea que eu como
Nessa puta que eu quero

Nesse abraço por trás
Nesse abraço de frente
No prazer que me dás
Nesse gozo da gente.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 22h21
[   ]




A FACE QUE EU TRAGO: ALEGRE E TRISTE



Que nada me traduza o que ora sinto.
Nem traços deixe eu: se alegre ou triste.
Se alegre eu parecer, saiba que eu minto,
e em triste nada mais do que despiste.

Não é que eu seja assim por puro chiste,
tampouco por missão ou por instinto.
Eu sou porque me apraz. Porque consiste
que eu seja de mim mesmo o labirinto.

Portanto, alegre e triste eu sou os dois.
E tudo ao mesmo tempo e no depois,
bem como fui no antes. Eis-me a face.

Que eu nunca me decifre ou me descubra.
Eu quero é mais um manto que me cubra
e a própria face nua me disfarce.


Antoniel Campos


Escrito por AC às 09h43
[   ]




~~~
 
É O NOVO E O DIFERENTE
 
É o novo e o diferente
— o ímpar que se fez par —.
É sentir tudo presente
em qualquer tempo e lugar.
É ter pouco sem faltar;
ter muito, sem excedente;
ser tudo suficiente,
não ter mais que procurar.
É ser repetidamente,
na sensação de inventar.
 
 
~~~
 
 
AS PESSOAS DO VERBO
 
Eu
Tu
Nós
 
 
~~~
 
 
ARITMÉTRICA
 
redondilha maior
menos
redondilha menor
dá infinito
: dois
 
 
~~~
 
 
CONTA DE CHEGAR
 
temo-nos pouco,
mas não faltamos.
 
 
~~~
 
 
SER
 
é?
 
é.
 
 
~~~
 
 
Antoniel Campos
 
 


Escrito por AC às 15h29
[   ]




POR AMOR À BELEZA DO SEU SER
 
 
 
Por amor à beleza do seu ser,
todo verbo que eu falo, digo: juro.
Esqueci toda cor que lembre o escuro
e de azul eu pintei o amanhecer.
 
Por amar meu amor que é você,
faço tipo e me enfeito de maduro,
mas eu grito e me traio e inseguro,
digo senhas, fingindo não dizer...
 
E por ser o seu ser o que eu respiro,
tudo em mim é você quando transpiro
— sou assim, monamour, fazer o quê?
 
Por você, perco o eixo, o fuso: piro.
E só volto à razão quando me inspiro
por amor à beleza do seu ser.
 
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 07h40
[   ]




Da boa idéia trazida pelo blogue do Manoel Carlos, e atendendo ao pedido da Dora Vilela, as respostas à enquete da
 
Ex-Libris da Tugosfera

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
 
Um livro é muito. Bastar-me-ia ser um poema: Tabacaria.
 
 
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
 
Na infância, queria ser o Visconde de Sabugosa, de Monteiro Lobato.
Na adolescência, cismei que eu era o Sr. Seixas, de "Senhora", José de Alencar.
 
 
Qual foi o último livro que compraste?
 
Poesia Reunida, de Alexei Bueno.

 
 
Qual o último livro que leste?
 
Ecce Homo, de Nietzsche.

 
 
Que livros estás a ler?
 
Invenção, de Augusto de Campos.

 
 
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
 
Augusto dos Anjos -  Obra Completa
Missal e Broquéis, de Cruz e Souza.
Fernando Pessoa - Obra Poética
Os Lusíadas, de Camões.
Estrela da Vida Inteira, de Manuel Bandeira.
 
 
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?
Bem, acho que vou quebrar a corrente (risos).
 


Escrito por AC às 11h09
[   ]




vou falar na tua boca,
nascer em verbo lá dentro,
ao som de flauta barroca,
bem lento.

vou falar nos teus cabelos,
capilar-me em pensamento,
e vou jogar teus apelos
ao vento.

vou falar na tua barriga
(de língua um piercing te invento),
talvez falar não consiga,
mas tento.

pois quero dizer-te: sim,
é de cabeça que eu entro,
no canto que entraste em mim
: no centro.


Antoniel Campos

Escrito por AC às 15h16
[   ]




eu não fiz
uma tatuagem no meu braço com as tuas iniciais
mas há
uma tatuagem no meu braço com as tuas iniciais


~~~~~


não existi enquanto a tua ausência.
em vão busquei-me, em vão te procurava.
se me sorris eu me sei existência.
no teu silêncio sei quem sou eu: nada.


~~~~~


você é
pra mim
muito mais do que pensa ser
pra mim

você é meu sim
e, há séculos,
você é mim.


~~~~~


—jure pela sua vida.
—juro. juro por você.

~~~~~


Antoniel Campos


Escrito por AC às 08h22
[   ]




eu e o ai


ou ia eu e o ai ia,
ou ia eu ou o ai.
o ai e o eu a eu ia
e o eu e o ai ia ao ai.

ai, eu ou eu : ia, ia...
ai, eu e o ai : ai e ai...


A.

Escrito por AC às 08h50
[   ]




SER SEM SER



Ser sem ser é ser não sendo sim
e no não sendo sim parecer.
É sentir ser início — e ser fim,
é saber-se que é — mas não ser.

É ser sempre e em talvez se saber,
sem saber que se foi sempre assim.
Ser sem ser é dar sim e o não ter,
é dizer tudo em nós e ouvir mim.

Sou sem ser e apetece-me assim.
Tenho a mim se eu de mim não me ser
e, se início, prefiro-me fim.

Se não sou, basta a mim parecer,
sou metade do não e do sim
e ter tudo é ter isso: não ter.


Antoniel Campos


Escrito por AC às 11h20
[   ]




DEMARCAÇÃO



A sensação de estar completo me visita:
em mim não falta nada e nada sobra.
Tudo me cala e grita.
Sinto-me folha que, amassada, se desdobra.

Passa-se um dia e outro dia e outro dia
e em mim tu permanência: gosto e cheiro.
Pensei que me trazia,
mas me deixei no teu lençol e travesseiro.

Corpo o teu corpo meu teu corpo teu meu tudo.
— a barba nos teus lábios e nas costas.
Sorvendo-te, contudo,
a minha língua, como gosto e como gostas.

Demarcação dizes que eu fiz? então me veja:
em mim, de Norte a Sul, de Leste a Oeste,
não sou sem que não sejas.
Eu te marquei? talvez, amor. Mas o fizeste.


Antoniel Campos


Escrito por AC às 15h55
[   ]




 
 
não é por fora, é por dentro
— a pele é que somatiza —,
teu breve emudecimento
o que sentes sinaliza.
é sentir fogo na brisa,
mas não por fora, por dentro.
 
quanto mais fechas, mas entro
— por dentro ris o que choras —,
e eu mais de mim te acrescento
ao som de sins e agoras
e o meu suor evaporas
pra me molhares por dentro.
 
tudo em ti é epicentro
— teu gozo é no corpo inteiro —.
é bem-vindo o adiamento
(pode esperar o cinzeiro)
teu olhar-gozo é luzeiro
cuja luz vem lá de dentro.
 
de alma teu corpo adentro
(meu corpo, dentro, demora)
perfeito entrelaçamento
(e o vinho perdendo a hora...)
se te arrepias por fora,
mais te arrepias por dentro.
 
te quero a alma por fora,
quero o teu corpo por dentro.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 16h32
[   ]


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