Poros e Cendais


é negro o rio
e negra é a noite,
mas no encontro da noite com o rio
eu vejo o claro,
pois em todo encontro
é essa cor que eu bebo.
 
~~~~~
 
perto do equador,
da mãe d'água e poraquê.
longe da distância e dor,
perto de chegar e de você.
 
~~~~~
 
sinto em todas as direções.
meu coração é voadeira e água.
chove muito, mas não vejo chuva.
tudo em mim transborda e não deságua.
 
~~~~~
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 14h20
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~~~~~~~~~~
 
três dias depois.
 
eu vim lhe encontrar para me exaurir de você, mas assim fica difícil. quanto mais lhe tenho — e tê-la significa rir junto, adivinhar palavras, querer igual — mais a sensação de que ainda me falta muito. o pior é que meu tempo se esvai. há um retorno no calendário com um "x" peremptório. indefectível. fatal. e o que eu faço agora, se só agora eu a descubro inteira? se só agora, depois que sei de todos os seus sabores, todos os seus cheiros, toda a sua pele, é que me vejo impregnado na sua alma e você na minha? desejava-lhe o corpo quando era você inteira que eu já amava.
 
 
~~~~~~~~~~
 
 
quase um ceciliano
 
 
se faz chuva em sol me invento
— sou tudo o que te convém —
és toda em meu pensamento
teu sobrenome é amém.
contigo me sou além
a tua ausência é tormento
pra te beijar, beijo o vento
há muito tempo és meu bem.
és louca pOr esse Cara?
sou louco por ti também!
 
 
~~~~~~~~~~
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 10h51
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enquanto a espera, a chuva.
enquanto o não, a calma.
a chuva é a lágrima da alma.

enquanto o frio, o escuro.
enquanto a dor, o grito.
o escuro é bem maior que o infinito.

enquanto o enquanto, o tempo.
enquanto sós, ninguém.
o tempo é o que se faz, não o que vem.

Antoniel Campos



Escrito por AC às 17h09
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Que nada seja antes da hora:
a que virás.
a da partida.
 
e, sobretudo, ocultada seja a hora:
a que virás.
a da partida.
 
para que eu não saiba se nasci.
só sinta a vida.
 
para que eu não saiba se morri.
só sinta a vida.
 
e que nada aconteça entre as horas
( a que virás.
  a da partida.),
que não seja o sentir que a vida é
o intervalo onde a vida pulsa e grita
 
e senti-lo que em mim tu definiste
no instante em que a mim disseste: vive
 
— no quantum onde a vida é entre as horas:
a que virás.
a da partida.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 16h26
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NÃO ME APRAZ O DESPIR POR TE DESPIR
 
 
 
Não me apraz o despir por te despir
e em teu corpo qual náufrago vagar.
Nem me anima somente o possuir
tendo em mente a certeza do gozar.
 
Gosto mais, quando nua, te vestir
de outro nu que desnuda o meu olhar.
Gosto mais, se te tenho, de sentir
a partilha do gesto de entregar.
 
Pois assim do teu nu eu nu me visto
e mais gozo no gozo de te dar.
Pois assim mais te sinto e mais te existo,
e ao  sentir e existir digo te amar.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 16h12
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Quero gritar a vida
numa palavra
: digo teu nome
 
numa palavra
quero gritar teu nome
: eu digo vida
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 11h11
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~~~~~~~~~~~~~~

 

Lançamento do livro " a esfera", de Antoniel Campos.

Data: 10 de Março de 2005.

Horário: 20:00h

Local: Lorotas Bar - Center Onze - Natal/RN



Escrito por AC às 11h13
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ATOPOS (frag.04)
 
 
Nem isso e nem aquilo
pois que não és nem um nem outro
 
como eu te chamo não sei a palavra
mas ela eu sinto, logo eu te imagine
 
em vão se calas
(nunca te me calas)
em vão se feres
(nunca tu me feres)
— não consigo ver-te em lâmina ou silêncio
posto que és além da coisa nominada
 
por isso eu canto se me vens em fúria
porque eu canto se me vens sorrindo
 
e eu me pergunto: tu és mesmo assim?
e ao mesmo tempo: eu sou esse outro?
 
nem tu és outra nem noutro me outro
: somos assim no eu em tu em mim.
 
 
Antoniel Campos
 


Escrito por AC às 16h22
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VERMELHO, STRECH
 
 
Na noite das esferas,
há fendas laterais,
rasgos na frente.
 
há um decote
que me faz urgente
em autógrafos gerais.
 
Há um blues e há risos e conversas,
há performances de loucos em sarau.
Há mãos ávidas pintando cinco telas
na temática das esferas
e um verso que eu deixo em teu vestido
sem nexo, sem sentido,
só pra pintar de azul o teu vermelho
e assinar o meu nome em teu joelho
desenhando pelas fendas laterais
uma esfera
com nossas iniciais.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 16h49
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TRÊS SONETOS COMEÇANDO EM PARA
 
 
 
1.
 
Para escrever grande, comece assim: "em tese".
E lá pras tantas um rotundo "em princípio"
(nem tanto lá pras tantas, pode ser no início).
No final: "ou seja". Mas, veja, não se apresse...
 
A turma gosta dessa coisa tipo ascese.
Então, aproveite: meta o malho no vício
(no de linguagem, não, irmão. No mais difícil
de encarar: o seu. Mas, e daí? tergiverse!).
 
Importa é o seu discurso altivo e escorreito,
como faz (copia!) o neófito em Direito
(neófito! e eu quase me esquecia dessa).
 
Olhe a coisa feita. Se orgulhe do seu texto!
Você é o cara inserido no contexto!
Um Machado temporão —oh!—quiçá um Eça!.
 
 
 


Escrito por AC às 12h08
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2.
 
Para escrever um poema bem cabeça,
desses que o leitor faz que entende e não entende
pê ene (aliás, nem você compreende),
escreva com desdém e muito tédio e desça
 
o verbo (vê lá: com desdém) em quem pareça
só saber escrever com start, middle & end.
Você, não. Você é do tal que não se rende
nunca a qualquer inspiraçãozinha besta.
 
Cite um poeta esquecido (é mão na roda!).
O leitor vai dizer: rapaz, o cara é foda!
"Eu sou a última Coca-Cola do deserto!",
 
(você vai se achar). Depois (sempre com desdém),
diga ao leitor: que é isso, meu brother!, nem vem!
Ah! "concisão" é a palavra. Fique esperto.
 


Escrito por AC às 12h07
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3.
 Para escrever sobre o que não se conhece,
nada como uma busca básica no Cadê
ou no Google (todo mundo faz!). E você
estará apto pra dizer o que acontece
 
quando a pressão sobe e a temperatura desce
e o que isso implica no fato de chover
ou fazer sol no seu quintal. E perceber
que, se você não é o tal, tal se parece.
 
Vale até (vá por mim) pesquisar o latim
e, como quem não quer nada, dizer assim
uma frase ou outra, citando sempre o autor.
 
O seu conceito vai subir que benzadeus!
O tema é verso grego? busca-se "troqueu".
E dirão (juro!) de você: puta escritor!
  
 
Antoniel Campos
 


Escrito por AC às 12h05
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VOGAL E CONSOANTE
 
 
 
Dizes nada e inda assim me dizes tudo
— teu silêncio ao silêncio não dou vez —.
Aproveito o silente conteúdo,
tua voz em meu íntimo se fez.
 
Antecipo a resposta a teus porquês,
tu respondes aos meus que os faço mudo,
sem no entanto, senão e nem contudo
: nosso léxico transcende o português.
 
Que dizer do sentir sentido a dois,
onde o antes transforma-se em depois
e o depois em não mais do que durante?
 
Mas se queres juntar letra e sentir,
sê quem sente e que eu seja esse existir.
Seja eu a vogal; tu, consoante.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 08h45
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BRASIL, Nordeste, NATAL, Homem, de 36 a 45 anos, Arte e cultura, - poesia poesia poesia -antonielcampos@uol.com.br
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