Poros e Cendais


TATUAGEM

"... ficar no teu corpo feito tatuagem"
chico buarque


e leva, por bagagem, o meu no teu sentir.
e quando eu for sorrir, ou for dizer bobagem,
que seja a minha imagem, a imagem que é de ti.

tu ficas por aqui — embora de viagem —
em mim, feito bandagem, na pele a me cobrir.
e eu faço coincidir — perfeita camuflagem —
meu corpo e tua linguagem, num doido possuir.

eu quero é te curtir! e ser teu personagem
dessa longa-metragem, só para te aplaudir.
eu vou me colorir com a tua maquiagem,
fazer tua dublagem sem fala a traduzir.

começo a te despir — e, a mim, tu, de passagem —
e eu (de sacanagem) assim te revestir:
com o beijo mais selvagem, nas cores da celagem
e delas me vestir.

e para concluir, te quero por blindagem
na máxima dosagem que a pele permitir.
e sem te resistir, me entrego à tua flambagem,
pra ter-te em tatuagem enquanto eu existir.


Antoniel Campos

Escrito por AC às 08h48
[   ]




O HOMEM DAQUELA MULHER ESCOLHIDA
 
 
é o pênalti perdido no final do jogo
é o último acorde do último bolero
é a cinza da coivara do Faca de Fogo
e é zero vezes zero vezes zero vezes zero
— se sem
 
é gol de bicicleta, gol de letra, gol de placa
é mover-se num bolero sem sentir-se que se move
é o brilho do madeira fazendo poros na laca
e é nove vezes nove vezes nove vezes nove
— se com
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 15h22
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ENTRE O QUEIXO E O CORAÇÃO



o ponto é esse e a distância, exata.
nem um milímetro acima, abaixo.
o ponto onde me encaixo
é o que me ata.

feito pingente, mina no rebaixo
lá do pescoço, em tom quase escarlata,
que faz do ouro e a prata
um mero facho.

ali onde me quero e nem me peça
"assim, amor, vai mais pra baixo..."
já te adianto que a resposta é não.

— depois sabes que eu vou, mas pra que pressa? —
enquanto não, tal ponto enfaixo
com beijos, entre o queixo e o coração.


Antoniel Campos

Escrito por AC às 20h26
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OK, SOU CIUMENTO



não é por não dizer que eu não o tenha
(se digo, mais ridículo me vejo).
eu morro quando alguém te deixa um beijo,
ou algo te insinua, tipo senha.

é um 'soco em meu estômago'. é lenha
saber que alguém deseja o que eu desejo
— disfarço com desdém, algum bocejo...
depois me desmorono — mas, convenha:

por que me és tão linda, linda minha?
por que me és tão minha, minha linda?
(vai, diz que o meu ciúme é babaquice...)

confesso. e nem metade do que eu tinha
a dizer, disse. a lista é quase infinda.
é só para que saibas. pronto, disse.


Antoniel Campos

Escrito por AC às 16h15
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BANAL

Sob a marquise dorme a esperança
e o desalento jaz ao rés do chão.
O olhar de um cego de longe me alcança
e uma puta acena em minha direção.
A lua foge, a noitinha avança,
somente o néon peita a escuridão.
A chuva chega e deixa na chegança
uma lama escura pelo calçadão.
Num botequim, um bêbado vomita.
Na rua erma, triste e esquisita,
se ouve um sino lá da catedral.
Há solidão e já meia-noitece,
o vento é frio e cada instante aquece
o desesquecer. Ah! Feliz Natal.


Antoniel Campos

Escrito por AC às 16h56
[   ]





AZUL SEMPRE TU


entre o preto e o branco
há tantas cores quantas há entre um azul e o mesmo azul.
eu vejo a cor que eu sinto e não aquela que percebo.

um instante é o mesmo instante que foi antes e é depois.
todo o infinito aí guardado.
mas eu sou o tempo que eu sinto e não aquele que mensuro.

da gradação entre as palavras, o sim bafeja o não e o não roça no sim.
todas as palavras aí contidas.
mas eu digo a palavra que eu sinto e não aquela que se encaixa.

ou seja,

enquanto a cor guardar a cor, verei Azul.
enquanto o instante for, te serei Sempre.
e enquanto a palavra permitir, eu direi Tu.


Antoniel Campos

Escrito por AC às 08h34
[   ]




A PÉTALA

 

 

leve e rubra,

brinca em minhas mãos a pétala.

ora na esquerda, ora na direita.

 

cendal fina fragrância,

adentra em meus poros essa pétala.

ora em mim completo, ora em mim inteiro.

 

e como só o que fica é o verdadeiro,

de súbito uma certeza sobrevém:

 

eu sei que tenho a pétala,

ela sabe que me tem.

 

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 17h11
[   ]




Dezembro é mês iconoclasta

 

 

Eu que mando às favas o zodíaco, minto se disser que essa data passa otavianamente em brancas nuvens.

Tu és, dezembro, toda a impaciência que hipocritamente disfarço em calmaria durante os onze meses que te gestam.

Tens o fado de fingir por mim tudo aquilo que se diz ao som de jingobels, de hohohos.

Teus trinta e um dias, no entanto, são demais. E acabo explodindo. Claro que por dentro, que é pra doer mais. Aos passantes e transeuntes, apenas a fagulha da lava que me trazes.

Em dezembro eu perco meus amigos. Em dezembro eu perco meus amores.

A impaciência — calma, imbecil (digo a mim). O mundo continua em janeiro — é tal que não suporto o vento, que dirá as gentes. Então eu venho a esse porto breve e leve das coisas que dizemos por escrito — ah, vã tentativa de tangenciar e..... ferrar-se no centro — e as gentes estão lá, como se me esperassem. Mas logo em dezembro? E estão lá dizendo do alto dos seus tamboretes que (nem dizem “salvo engano”, dizem e pronto): o caminho da poesia, imbecil (dizem a mim), é esse.

Eu: escuta, mané. Você pode não acreditar, mas o umbigo da literatura não está no seu umbigo. A única coisa que está no seu umbigo é o seu umbigo, porque o umbigo da literatura é feito o espírito: sopra onde quer.

Mas o fascismo é tal que tudo se arranja. Eu? ser acusado de não ouvir as vozes díspares dissonantes atravessadas enviesadas transversais àquilo que julgo o caminho? ma jamé! Vem cá, menino: você que é estranho ao nosso ninho será aceito como se aceitado fosse o seu falar. Quero ver nos acusarem de gueto. Pensam e dizem.

Mas fodem o próprio e, de resto, o resto. O próprio porque isolam-no, tiram-lhe seus pares — e por extensão, seus ímpares —, e o resto porque, ora, resto é resto. Mas é tudo muito educado. É tudo muito rebelde — MENTIRA! — É tudo muito estudado e embasado. É tudo uma ode ao umbigo deles mesmos — VERDADE!

Um beijo às exceções, claro. Àqueles que estão lá tal como se aqui estivessem, porque não há lá nem aqui. Há ser. Há querer ser aquilo que se quer ser. E onde e como e quando e quanto.

Mas tudo por culpa de dezembro, que me faz dar ouvidos ao que de ouvidos não precisa. Puto com esse mês. Puto por me deixar à flor da pele. Bicho acuado, na defesa.

Um esforço enorme contra a enorme vontade de destruir coisas caras, por nada.

Em dezembro eu perco, meus amigos. Em dezembro eu perco, meus amores.

 

Antoniel Campos

 

 



Escrito por AC às 12h18
[   ]




DA VÃ TENTATIVA DE QUE UM BEIJO TE RESUMA
 
 
 
Um beijo, dois, três, quatro... eu te dou,
e em cada eu por mil me multiplico.
No beijo é aonde vou
buscar-me em tua boca — e nela fico.
 
Em vão tanto beijar: não abdico
do tanto a te beijar no que restou:
teu corpo codifico
se beijos em teu corpo nele sou.
 
Então te beijo tudo e todo em beijo,
me cai a ficha (Rá!): são vinho e queijo
os únicos sabores que me dás?
 
Que nada. Beijo é bom mas não resume
o gosto que me és e nem presume
o tanto de sabor se em mim estás.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 08h37
[   ]




 

 

vou começar a escrever cartinhas

e utilizar mais vezes o correio,

que é pra tuas mãos juntarem-se às minhas

ao desdobrares as cartas ao meio.

 

nesse momento sei que me adivinhas

e a tua boca eu toco de permeio.

se eu tiver sorte,  a carta tu caminhas

entre tuas coxas, a barriga e o seio.

 

se vais dormir, eu dormirei contigo,

beijando a boca, te lambendo o umbigo

e me enrolando nas tuas trancinhas.

 

deleto e-mails, esqueço os torpedos,

pois pra tocar na ponta dos teus dedos

vou começar a escrever cartinhas.

 

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 14h38
[   ]




de cabeça
as meias palavras, as meias verdades,
a meia hora e o sim pela metade.
todo meio termo será nulo
e faço do quase a palavra que risco.
seremos:
o em mim o em ti. não mais tu ou mim.
a palavra erra não porque disse errado,
mas porque não disse.
por isso eu digo agora: é de cabeça,
e nada será em mim sem que não sintas.
por isso eu digo: é para sempre,

que o tempo é intensidade e não sucessão de horas

por isso eu: sim, levo-te comigo,
que já não vou ou fico
: tu és em mim permanência.
Antoniel Campos


Escrito por AC às 13h53
[   ]




DECÁLOGO DO APRENDIZ
 
 
 
Mais vale sugerir do que dizer
— diz mais quando se diz com sutileza —.
Falar como quem fala sem querer,
juntando, ao que disser, delicadeza.
 
E nada lhe pergunte. Dialogue.
Respostas surgirão naturalmente.
A chave é perguntar sem que interrogue
( e ela, respondendo, não se sente).
 
Sincero seja sempre a qualquer hora
(mentir é demodé e é um perigo...).
O que se vai dizer não se decora.
O que se vai dizer já vem consigo.
 
Jamais fingir saber o que não sabe.
O que lhe faz valer é sua essência.
Nem tudo há que dizer. Nem tudo cabe.
Mais vale o que se aprende em convivência.
 
Que seja a sua altura a altura dela,
falando olho no olho, sem rompante.
Que ele valha tanto quanto ela
e ela veja nele um semelhante.
 
Elogie. Mas só não gratuitamente.
Mais vale o elogio à hora certa.
Quem ouve só louvor, como se sente?
não sabe quando erra ou quando acerta...
 
A pressa é inimiga, diz o dito.
Se ela recuar, recue também.
Mas fique a esperar pelo desdito:
se ela avançar, avance além.
 
"Cantar"? não faça isso. Espere ser.
Cantar é pular fases. Sorva cada.
O encanto da conquista é perceber
que a boa é a que se dá compartilhada.
 
Presentes caros, "chiques"? nada disso.
A ela dê os simples, dê com calma...
Mas junte a cada um a gana, o viço.
Presentes dê quaisquer, mas dê com alma.
 
Por fim, lhe seja ombro, se é o caso.
E seja a qualquer hora. Firme e presto.
Passada a precisão, não por acaso,
a ela seja boca todo o resto.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 12h59
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OLHE PRA MIM SEMPRE
 
 
não preciso ver você
              pra ver você
 
nem cabe a mim querer vê-la
                         ou não vê-la
 
— vejo-a não quando eu quero
       e a vejo quando não quero —
 
a tudo que eu olhe a vejo
e a vejo se nada eu olhe
 
vejo você todo tempo
e no tempo que ignoro
 
para lhe ver, nada faço
: você habita em meus olhos
 
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 23h51
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CUIDAR
  
Vontade de cuidar
juntar as mãos e os dias
satisfazer-se em estar
 
a permanência ser tudo
vontade de ficar mudo
e só vontade de ficar
 
cuidar de você. cuidar.
 
só nós dois e o que vier
juntar a voz no travesseiro
dizer: sou seu por inteiro
enquanto você quiser.
 
enquanto você quiser.
 
enquanto você quiser.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 12h34
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shampoo


bastariam os movimentos dos quadris
face à minha face
os teus joelhos em ângulo
tuas mãos em meus cabelos

bastariam

sentir o teu sabor mais íntimo
o ir e vir e o vir e ir
da perfeita sincronia desencontrada
dos meus lábios
                nos teus lábios

bastaria o postergar do ápice

o ver o transformar do teu sorriso
em outros risos que adoro, amo e quero

mas não

tinhas que vir com teus cabelos ainda úmidos
saídos da banheira a pétalas preparada
e tinhas que fazer dos fios — pura maldade —
o carrossel a girar em todo o rosto meu

: cheiro esse em que ainda permaneço


Antoniel Campos


Escrito por AC às 08h44
[   ]




TODA
 
 
nem tudo a cores, nem tudo em P&B
: no degradé é onde o todo vive
e ri de quem te diz: ah, isso é cult
e ri de quem também diz: isso é kitsch
 
vê quantas coisas entre o tudo e o nada
se vês com apuro, nada vês igual
de um jeito cantam, doutro jeito dizem
colhe qualquer e do teu jeito canta e dize
 
quero te ver de forma tal que eu nunca a vi
cada meandro entre a cena e o background
e tê-la inteira e inteiro ser-te ao fim. mais nada
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 23h18
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BRASIL, Nordeste, NATAL, Homem, de 36 a 45 anos, Arte e cultura, - poesia poesia poesia -antonielcampos@uol.com.br
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