Poros e Cendais


Missa

Vapor de incenso rente aos góticos das naves.
Uma mulher se abeira ao genuflexório.
Ao latinório o órgão junta os sons mais graves
e em contraponto ela inicia um responsório.

Em meio a preces a cerviz cede e se encurva,
e a fronte deita na rudez da mão constrita.
De vez em quando o seu pescoço se recurva,
mostrando a face lagrimada e mais contrita.

A impressão é de quem traz todo o pecado,
e de quem é a filha amada da desdita.
O choro e a reza em contubérnio consumado:
ao mesmo tempo que é perdão, lembra a vindita...

Mesmo de costas, no retábulo percebo
aquela imagem que em trejeitos se revolve
(um gosto amargo vem no vinho quando eu bebo,
e em minha mão o pão sagrado se dissolve...).

Do Altar-Mor desço os granitos da escada,
num sentimento que de culpa mais parece.
Chego ao transepto e o meu verbo não diz nada,
ela, surpresa, quer falar, mas se emudece.

Cessa do choro, cala a prece e se levanta,
e vindo a mim, ato contínuo, se ajoelha,
(olhos azuis, a pele branca, a tez de santa...)
e a minha mão ousa tocar sua guedelha.

Com o polegar enxugo as lágrimas do rosto,
e um arrepio me tomava e eu tinha medo...
Só pelo tato e pelo olhar senti seu gosto,
ao ver seus lábios à procura do meu dedo...

Me valho à prece enquanto toco a sua boca,
e nela eu faço a marcação da Cruz Sagrada,
quanto mais rezo, mais a fé de mim se apouca
(meu corpo em pé e a minha alma ajoelhada...).

A minha mão decai da boca ao seu pescoço,
quero parar, mas o pecado me prossegue.
Cedo ao instinto e da razão nada mais ouço,
o olhar cerrado, quer abrir, mas não consegue...

Um forte impulso ao seu encontro me impele.
Eu me ajoelho e fico à altura dos seus olhos.
Minha vontade é me queimar na sua pele.
Unto seus ombros derramando os Santos Óleos...

Eu desamarro o seu justilho, incontinente,
e as minhas vestes de ofício eu rasgo ao meio.
O óleo segue a deslizar, suavemente,
nas ogivais lactescentes dos seus seios...

Lembro da hóstia e uma força me sustém.
Não sei de mim, tanto desejo me treslouca...
em seus cabelos os meus dedos se detêm
(sagrado é o trigo que eu ponho em sua boca...).

As suas mãos eu levo à pia batismal,
sem esperar que alguma prece me concentre.
Me dessedento em meu pecado gutural,
bebendo o vinho do Sacrário do seu ventre...

Qual Pentecostes, misturei minh'alma à sua,
eu sussurrando as Ladainhas mais insanas,
e ela em responsos de suor da carne nua,
gemendo em gozo cada "Oh, Glória..." das Hosanas...
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 11h13
[   ]




OLHOS
 
 
Convido-te às coisas mínimas,
despercebidas no roldão das horas;
e àquelas que não são ainda,
convido-te, senhora.
 
Somente as coisas repartidas vivem
— se eu só sinto, tudo é uma idéia —.
Eu te ofereço o ouro doce e líquido
que há na colméia.
 
Eu te convido a castiçais acesos
— que os tolos chamam lampiões a óleo —,
posto que a forma que evolui não muda
a luz dos teus olhos.
 
E nos teus olhos mínimo me encontro
— grande é quem vê e eu só me quero ouvinte —.
Dos olhos basta a mínima presença
no dia seguinte.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 17h56
[   ]




QUERO
 
 
Quero perder-me indo ao teu encontro,
de não saber de novo me encontrar.
Dizer te amo tanto, tanto e tanto,
o quanto humano seja alguém amar.
 
Quero perder o senso e a compostura
e por insano, só por ti, passar.
Quero correr o risco da aventura,
como os amantes correm sem pensar.
 
Quero gritar teu nome em todo canto,
que de tão alto cesse o meu gritar.
Quero sorrir ao te mostrar meu pranto,
que em sorriso fez-se do chorar.
 
Quero tocar-te como toca ao vento
tuas palavras, mesmo sem falar...
Pôr fim à ânsia que se fez tormento,
em todo instante e em qualquer lugar.
 
Quero dizer e repetidamente
dizer de novo e dizer a voltar:
que a dor que eu tenho cresce intensamente,
por não te ter e por tanto te amar.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 07h34
[   ]




TU EM TUDO O QUANTO ESCREVO

 

 

 

Enquanto sinto em minha mão teu cheiro e gosto,

teu rosto pinto no papel com afago e pranto.

E meu espanto tão mais cresce ao ver disposto

o mosto ao meio destes versos que te canto.

 

Será encanto degustar mel do desgosto,

posto saber ser minha lira o meu quebranto?

Quanto me sou se está teu Ser a mim aposto?

(Nem Ariosto em mil oitavas diz o tanto...)

 

Assim caminham os meus poemas que te escrevo.

(Nem sei se eu devo assinar meu nome ao fim)

A mim já basta desenhar-te com enlevo,

 

mas com relevo escreverei teu nome sim!

Enfim és parte em tudo o quanto me atrevo

e me descrevo, ao descrever-te, Alma afim.

 

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 10h28
[   ]




PORQUE NUNCA MAIS ESCREVI UM POEMA MEIA-BOCA
 
 
A tua boca cheira a vinho honesto
(nem carecia o corpo a sabonete...),
tal se nos lábios trouxesse um Moet
Chandon. A boca é mais que gosto: é gesto.
 
Pode dizer o que eu já sei: não presto!
não sei de culpa em te querer banquete,
e em tua boca — tela e cavalete —
dizer as cores desse manifesto:
 
à meia boca (em vez de boca inteira)
é bem melhor pra se fazer parceira
parte que beija da parte que diz.
 
:se só te beijo ou só te falo, é pouco:
quero o sabor e o teu gemido rouco.
À meia boca nada é por um triz.
 
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 01h12
[   ]




NU O TEU CORPO
 
                        "Nudez é uma palavra que eu adoro compor contigo."
                                                                                    (Ilídio Soares)
 
não porque, nu o teu corpo,
eu o queira feito um bicho
mas porque, nu o teu corpo,
eu o quero feito um bicho
 
múltiplas são as línguas por que falas
e tantas as leituras que me deixas:
        um ponto que virgulas e prossegues
        um gesto, de propósito ou impensado
 
só não tergiversas (não o poderias)
quando me fitas e, nu o teu corpo,
mo entregas
        à vírgula um ponto cravo
        e ao gesto não penso do motivo
 
não podes o não (sei que poderias)
que em vão teu faz-de-conta ensaia à fala:
como-te no sim que o não não cala
e em não, por sim mais ser, mais comeria
 
homem me despeço
 
nu o teu corpo
eu, teu homem teu,
o quero como um bicho
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 11h13
[   ]




MINHA MENINA



é como um abrir das pedras do meu caminho

um afago leve
desfazendo os enrugados
entre minhas sobrancelhas

um não-dizer que me olha
e me pede: "diga...",
pousando as mãos cruzadas no meu ombro

é um ouvir do que só penso e não me digo

é um retirar da tristeza dos meus olhos

é de um falar tão mansinho
que me desmonta

mas às vezes faz biquinho
e bate o pé e grita e chora

e antes que eu me culpe ou me ajoelhe
sinto as suas mãos me sorrindo
seu olhar me pegando
naquele sorriso que parece choro
mas é apenas um choro sorrindo

minha menina...
te amo cada vez muito.
 
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 06h41
[   ]




LONGE É QUANDO EU DEVO IR
 
 
Longe é quando eu devo ir,
quando aqui quero ficar.
Muito fico no partir,
pouco chego — se chegar.
Perto é ver sem lá estar,
perto é ser sem se sentir.
Perto é ter sem possuir,
longe é ter que inventar.
Perto sou, se estás aqui.
Longe, sou qualquer lugar.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 18h31
[   ]




O INSTANTE EM QUE O SILÊNCIO É AVARIA
 
 
 
O gozo, o senhorio, a fruição.
A posse, o domínio, o usufruto.
O foro, a investidura, a servidão.
O uso, a imissão e o desfruto.
 
Recíprocos. Completos na dação.
Sem gravame, sequer, de um só minuto.
Folia, siso, senso, danação.
As faces de nós dois num anacoluto.
 
Porém, não obstante estar contigo,
lindeiro, confinante e contíguo,
há mais para ocupar no que já somos.
 
:o instante em que o silêncio é avaria.
O que, ao não dizer, diz e diria
o que sabemos ser e o que não fomos.
 
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 06h21
[   ]




"A DELICIOSA CONCORDÂNCIA DE UMA NOITE"
 
                                                            "Aí onde você é terno,
                                                              você diz seu plural."
                                                                        Roland Barthes
 
Permaneçam nossos corpos lado a lado,
possuindo-se sem posses noite adentro.
Saciando-se do intento desejado,
que é o sentido de estar dentro, sem ser dentro.
 
Seja grito o que se passe por calado,
e o que passe por tangência seja centro.
Mais me queiras quanto menos eu for dado,
e eu por ter-te, sem que a tenha, me concentro.
 
— Se a possuo, nem na posse permaneço.
O prazer é imediato. Deliqüesço.
E o que eu trago para ti guarda lonjura.
 
Fica assim, que assim te tenho sempre e tanto.
Já nem pego e já nem falo: sinto e canto.
Contra a sede do fugaz bebo a ternura.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 15h32
[   ]




 
(presentaço da grande poeta Márcia Maia. Um beijo, querida)
 
Fazer-me noite esquecida
vestir-me de modo austero
fingir que não me intimida
o verso em que me encarcero
fingindo ser um bolero
a ladainha inserida
entre o rosário e a vida
que queria e mais não quero
 
não há retorno ou partida
no deus que odeio e venero.
 
Mais uma noite indormida
na calçada onde pondero
se me atrai o formicida
ou se ainda persevero
na busca do que malquero
: uma paixão incontida?
: casa, dinheiro e comida?
tudo o que sei não ser vero.
 
não há retorno ou partida
no homem que odeio e venero.
 
Márcia Maia


Escrito por AC às 11h35
[   ]




 

 

não deixar rastros na vida

é da vida o que mais quero.

a mim bastar-me em ferida,

aos outros bastar-me em zero,

pois cresço se degenero,

se a cicatriz é doída,

se tenho o não por guarida,

e a todo sim desespero.

   se sou retorno ou partida,

   em cada me dilacero.

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 17h30
[   ]




ERA JÁ TUDO PREVISTO

(era già tutto previsto)
 
 
quando a face da surpresa
beija a lente dos teus olhos,
a dois palmos, tu de mim,
sem que saibas o que digo,
mal disfarças. mal disfarço.
tudo é, sem que pareça.
tudo diz, sem que precise.
 
era já tudo previsto
e sequer nos percebemos.
pouco a pouco, lentamente,
cada dia, todo instante,
nesse jeito diferente
de querer e ser distante.
 
era já tudo previsto,
resta ser, que se consuma.
mas, defeso, te resisto,
tudo em ti me enciúma,
cada letra, cada fala,
se sorris ou se te calas.
 
era já tudo previsto
e sabíamos assim.
mal disfarço, mal disfarças,
a dois palmos    tu de mim.
 
 
antoniel campos  


Escrito por AC às 22h09
[   ]




RAZÃO DE AMAR

 
 
 
 
E vou te amar, eu tendo ou não razão e pronto!
(O coração que se segure ou se arrebente.)
Eu vou te amar de forma tal e tão fremente,
que ao descrevê-la o verso grite após o ponto.
 
Eu vou te amar como eu te amo: sem desconto.
De peito aberto, por completo, corpo e mente.
Eu vou te amar contando o tempo trás pra frente,
pois o que vem, sendo infinito, já não conto.
 
Eu vou te amar, mulher-menina, por inteira.
E no espaço entre uma quinta e sexta-feira,
dar num segundo o que me resta ter por vida.
 
Eu vou te amar, por fim, sem ter razão alguma,
pois a razão maior que todas, uma a uma,
é a razão, por te amar, desconhecida.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 11h57
[   ]




ME ENCONTRO

 
 
 
 
Em nenhum dos lados,
nem sob, nem sobre,
mas entre.
 
No mínimo imaginado
e em cada folículo
dos teus pêlos.
 
Nos meridianos dos cabelos,
no Equador do teu pescoço,
nos sulcos digitais das mãos e dedos,
na derme e epiderme do teu dorso
eu me encontro.
 
Eu me encontro em cada gota exsudada.
No teu sangue,
nas tuas vísceras,
nas tuas tripas,
na tua baba.
 
Em cada gesto contorcido do teu gozo,
onde te emprenho
e, fecundando-te de mim,
me encontro assim
e não mais me tenho.
 
Esporo de mim mesmo no teu ventre germinado,
absorvendo-te o cálcio,
carbono do teu carbono,
no líquido amniótico naufragado.
 
Ora pai, ora rebento,
osmoso-me de ti, me desplacento
e qual fêmea parida,
vou lambendo-te por cria
e a própria cria sendo.
 
Em cada som do teu espectro
e nas cores dos teus gritos e silêncios.
 
Na lágrima de todos os motivos
e em todos os motivos de tua vestimenta
eu me encontro.
 
Na tua saia,
no teu seio,
no teu cio.
 
E quando grito ou silencio inda me encontro
aos escombros, por inteiro,
janeiro após janeiro,
no abraço onde seguro o teu ombro
com meu queixo,
me encontro e não te deixo.
 
Na fala altissonante dos papiros,
em que deixei meus versos mais sagrados,
embalados
na paz do cantochão dos teus suspiros.
 
em ti todo me encontro.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 22h49
[   ]




DESSES SCRIPTS QUE A GENTE INVENTA E QUER

 
 
"uma pergunta (desde sempre pululando) me assalta: é possível viver isso com alguém que não saiba sentir assim? Ou: as pessoas que não escrevem/não percebem assim o mundo e os sentimentos poderão ser astros principais desses scripts que a gente inventa e quer?" (Nálu Nogueira)
  
 
um medo me assalta na resposta e eu paro um pouco.
se lhe digo: não é possível / não podem
minto pra mim e pra você.
 
pra todos nós, pra você e pra mim,
a resposta que tenho e sinto: sim.
 
amamos no outro o que nos falta e nos completa?
quem quiser que pense assim.
 
amamos no outro o buscar da mesma meta?
menos ruim.
 
amamos o outro porque nele nos outramos
e ao mesmo tempo nos fundimos. nele somos.
 
o outro, que não sente como sentimos,
sente o que sentimos.
e não pergunta se sentimos menos
só porque não sentimos como ele.
 
ele sente e basta.
a gente sente e escreve.
 
em que o escrever sente mais do que o bastar?
 
pensemos: eu amo e preciso dizer,
o outro ama e não precisa falar.
 
: amamos o outro porque amamos.
 
e o outro, que nos ama, ama ouvir,
pois é como se dissesse,
esses scripts que a gente inventa e quer.
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 09h39
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BRASIL, Nordeste, NATAL, Homem, de 36 a 45 anos, Arte e cultura, - poesia poesia poesia -antonielcampos@uol.com.br
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