Poros e Cendais


ECOS

 

  
Contra a voz que há em mim eu me levanto,
caso em mim eu me louve ou me apiede.
Finjo o riso se a voz me quer o pranto.
Finjo o pranto se a voz o riso pede.
 
Eu ser um ou ser outro, nada impede,
pois meu pranto é meu riso o tanto quanto.
Sou o riso que o pranto me concede,
sou o pranto do riso nesse enquanto.
 
Dito assim, riso ou pranto, pouco importa?
se há um, logo o outro lhe comporta?
sem porquês, sem quereres, sem espanto?
 
Nada disso. Mas isso tão-somente:
se a voz que eu trago não me mente,
contra a voz que há em mim eu me levanto.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 20h32
[   ]




EU TE AMO

 

 

Eu te amo cada vez que eu respiro,

eu te amo em cada verso que transpiro.

 

Eu te amo na palavra estridente,

na não-dita, na pensada, ou reticente.

 

Eu te amo em cada canto e momento,

meu amor por ti transcende espaço e tempo.

 

Eu te amo no silêncio e no meu grito,

eu te amo na molécula e no infinito.

 

Eu te amo neste instante em que escrevo,

eu te amo até sabendo que não devo.

 

Eu te amo como a alma que procura

sua alma, na razão, ou na loucura.

 

Eu te amo como quem rasga a lei

e caminha sem país, sem credo, ou grei.

 

Eu te amo sem medir as conseqüências,

eu te amo além de mim e da decência.

 

Eu te amo como quem faz oração.

Eu te amo em confissão e em segredo.

Eu te amo vinte e quatro horas diárias.

Eu te amo num estado além da ânsia.

 

Eu te amo quando digo que te amo,

eu te amo, como agora. Eu te amo.

 

Eu te amo, eu te amo, eu te amo.

Eu te amo, eu te amo,

 

Eu

Te

Amo.

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 08h52
[   ]




LIÇÃO DE GEOGRAFIA


 

Repare o tempo em qualquer parte
e deixe o toque ouvir cada momento.
Tire a luva invisível
e sinta sob a máscara invisível do meu rosto
o gosto que eu fiz para você
durante todo o tempo:
    de esperas
    de segredos
    de medos
    de recuos, desencontros, desesperos


(em suma, de desejos).

Releve a ruga, a barba por fazer e algum cabelo branco
(brinque-me.
 Pela janela, além da brisa, só a noite).

Pare no meu queixo e aí queira a sua boca.
Só não deixe que um beijo lhe sacie,
lhe baste,
porque um beijo rouba a história de outros beijos
e eu quero do beijo o motivo
vivo
porque sou feito de ânsias, de antes, nunca de depois
(e eu com essa cara de depois...).

Toque-me os ombros,
mas não tire o peso que imagina que eu carregue.
Todo o peso eu trago nos olhos
 —testemunha dos instantes em que você não veio.

Experimente as minhas mãos.
Aqui o aparente frio me desmente.
queimando, ainda, o cheiro da sua.


Mire-me os olhos
e deixe-me ficar.

E essa brisa eu já nem sei se é de mim quando respiro
ou de você quando se vai.

 

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 10h53
[   ]




CADA VERSO QUE ESCREVO É SEM RAZÃO

 

 

 

Se a esquiva é o desvão do fingimento,
o silêncio sugere o sim e o não.
Se a lembrança prepara o esquecimento,
cada verso que escrevo é sem razão.
Muito mal representa este momento;
o passado e o futuro, pouco então.
A distância do verbo ao pensamento
é-me acima a do claro à escuridão.
Já não sei o porquê do movimento
que se dá entre a pauta e a minha mão.
Se há gozo, confundo com o tormento
—duas faces da mesma sensação—.

Um poema não diz meu sentimento,
cada verso que escrevo é sem razão.

 

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 16h34
[   ]




É COMO SE AS PAREDES RESPIRASSEM

 
 
 
É como se as paredes respirassem
e os cheiros misturados se sentissem
e todas as palavras não calassem
embora no silêncio se fundissem
É como se o olhar soubesse o toque
e o toque adivinhasse o que não visse
mas visse no murmúrio o mesmo enfoque
na imagem que se viu mas não se disse
É como se a manhã não mais chegasse
e o dia fosse noite todo o dia
É como não querer que se acabasse
o instante em cada instante que se adia
   e o teto fosse o chão e o chão o teto
   e toda a atmosfera fosse afeto
 
 
É como se de pétalas chovesse
o lustre mas tal chuva não caísse
É como se o desejo percebesse
aquilo que a razão não mais medisse
É como se a pergunta respondesse
e o ventre da resposta perguntasse
É como não se ouvisse e compreendesse
o mínimo cicio que faltasse
É como se arranhasse e não ferisse
e tudo o que sentisse, delicasse
É como se dos poros se parisse
a alma em cada gota que suasse
   e o gosto fosse o gosto de um só gosto
   e o fogo não soubesse de qual rosto
 
E sem que se pedisse, se virasse
e em forma de pirâmide se erguesse
Uma mão que no espelho se agarrasse
e a outra o travesseiro pertencesse
e o beijo noutra boca deslizasse
e enquanto esse subisse, essa descesse
e a boca desse beijo se molhasse
e o beijo nessa boca mais bebesse
e o que não fosse beijo se encostasse
e a boca mais ainda recebesse
e o beijo no pescoço assemelhasse
da boca que pulsasse a que gemesse
  e o mais só sussurrasse, sussurrasse
  e sem que se dormisse, mais sonhasse
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 21h27
[   ]




MELHOR DO QUE O GOZO QUE ME DÁS

 
 
melhor do que o gozo que me dás,
é o gozo que me dás dia seguinte:
ris à toa.
 
o tanto que se diz é tanto faz,
e tanto faz quem diz e quem ouvinte:
tudo é loa.
 
no outro dia toda em mim estás,
e estou inteiro em ti, por conseguinte.
: coisa boa.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 18h59
[   ]




Direi do amor não tudo, mas o quando

 
Direi do amor não tudo, mas o quando
— o amor só sei dizer o amor sentindo.
Direi mesmo sabendo repetindo
— o amor se vai no dito renovando.
 
Eu sinto quando amor se perco o mando,
se tudo o que eu disser, dizer sorrindo.
O amor se dá somando e dividindo,
na sensação de estar multiplicando.
 
O amor é quando o quando é desse jeito:
não há saber da causa, só do efeito,
não tendo, desse efeito, seu comando.
 
Te amo em bando — tantos que me sinto
(em menos não consigo ou me consinto),
pois todas tu resumes: és meu quando.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 17h46
[   ]




VUELTA

 
ah, esse tempo e essa distância.
tu a quantos passos dos meus dedos,
do meu alcance,
dos meus segredos e da minha sanha.
tu que me tens fácil
e me ganhas em palavras comezinhas,
amiúde em tua voz e nela envoltas
que nem percebo-as minhas.
traídas no teu timbre
e de mim subtraídas,
o teu chamado eu ouço
no teu chamado eu fico.
 
e assim o ambiente tu preparas,
trazendo, a cada instante,
somente o que a ele é necessário;
já eu, pelo contrário,
ou trago tudo ou nada trago:
ou te como de beijos
ou te devoro de ausências.
 
mas sabes o meu preço:
declinas o teu colo,
solfejas um bolero,
e dizes o que eu quero
na espera que ofereço
(e mais esperaria,
 que esse tempo não se conta),
e tu, num faz-de-conta,
nos lábios que a custo movimentas,
lançando-me palavras
castas e sedentas,
certeiras e fugidias,
com as quais, sabes, me adias
e com elas me demoro
porque tanto me inebria.
 
mas, é pouco. pensas.
 
não sei como,
mas, aos poucos,
lentamente,
todo o ambiente olorizas.
um cheiro não guardado nos perfumes
e às flores, certamente, ocultado;
e eu, embriagado,
sabendo-te culpada da fragrância,
mais me aproximo
e inútil escondo a ânsia
de vestir-me do teu corpo,
de beber a tua pele,
cada pêlo e cada poro,
cada curva, toda parte,
eu inteiro, tu completa.
 
e como não convém dizer segredos
a olhos que não sejam teus e meus,
deixemos que adivinhem o percurso
da vuelta e reencontro
do meu toque, meu olhar,
no presente derradeiro que me deste:
tu inteira,
epicentro desse cheiro.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 18h03
[   ]




BEIJOS NA MANHÃ

  

 

castos

meus beijos da manhã

nas suas

costas

gasto

meus beijos de manhã

e você

gosta

adorne

de beijos as manhãs

em que eu te

aderno

afagos

de beijos nas manhãs

em que me

afogas

beba

meus beijos nas manhãs

depois me

babe

astro

nos beijos da manhã

na tua

ostra

nau

de beijos da manhã

pra você

nua

 

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 10h11
[   ]




TRÍPTICO

  

 

Não é só proclamar o que convém,

nem louvar o que pensa parecer.

O dizer, como o vento, vai e vem.

Duro é ser.

 

Não é só apear-se do porém,

nem ao mas e ao contudo se suster.

Não tem medo quem pensa que não tem.

Duro é ter.

 

Não é só vislumbrar o mais além,

nem o menos mais longe perceber.

Nada há, pós e antes, tudo é em.

Duro é ver.

 

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 17h51
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