Poros e Cendais


brincando com a prole

 

Agora já não sei ausência,

Depois é o que se faz demora.

A Sombra aos poucos me devora,

No Sempre a tua permanência.

 

Laura e Antoniel



Escrito por AC às 08h50
[   ]




CIÚMES

(difícil admitir, mais de ocultar)

 

de tudo, amor meu, de tudo, tudo.

do dia que amanhece e que primeiro

teu corpo ilumina e vê inteiro,

dizendo-te bom dia! embora mudo.

 

do teto e das paredes do teu quarto,

da cama, do lençol, do travesseiro,

que guardam do teu corpo o mel e cheiro,

das coisas que te cercam quando parto.

 

do espelho que, atrevido, vê teu rosto,

da água escorrendo em tua face,

do dentifrício audaz de onde nasce

um gosto diferente do teu gosto.

 

da lingerie que toca as tuas pernas,

da meia 7/8 te vestindo,

da meia-taça (ah, raiva!) te sentindo

no ajuste, em cada seio, onde te alternas.

 

da saia a um palmo do joelho,

do secador ventando em teu cabelo,

do deslizar suave e do desvelo

com que o batom te pinta de vermelho.

 

de tudo o que tu comes, vês ou tocas:

da chave, maçaneta, do volante,

do que mira teu olho a cada instante,

da pizza e catchup com pipocas.

 

de tudo e muito mais... mas me contenho.

só quero que tu saibas que eu te amo,

e quando de amor meu meu amor chamo,

ciúme, até de mim, confesso, tenho.

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 07h51
[   ]




1.
não beba o que eu chorar
que ainda é cedo.
 
deixe tudo parar.
 
espere,
ainda é cedo.
 
e sem que haja alguém a nos ouvir,
só reste a mim saber dos teus segredos
e tu e mais ninguém por confidente.
 
claro e transparente,
então hei de saber que te mereço,
ouvindo o coração em descompasso.
 
no todo e pelo avesso,
de mim sei que me esqueço,
sem ti sei que não passo.
 
 
2.
                "Na frente
                            seus olhos molhados.
                            Atrás
                            minha falta de perdão."
                           (Yara Daher - Procissão)
 
 
caminho à frente,
em busca da palavra que eu preciso: perdão.
 
atrás, a que eu mereço: não.
 
desfaço o passo,
volto de onde estou: apago os rastros
e te convido a escrever na areia nova
- nossas mãos numa só mão - ,
a palavra que nos diz e nos renova:
                                    precisão.
 
 
3.
foram-se os olhos, não o corpo.
a alma, tampouco, se afastou.
só a tola necessidade de distância,
a querer fingir que é longe
o que tão perto vive.
 
levarei na pele o entalhe que deixaste.
pagarei na pele o que te deixo.
 
mas antes que partamos, um lembrete:
se ouvires meu riso, não te esqueças
: são lágrimas sorrindo em falsete,
o timbre derradeiro que mereço.
 
o que eu sou nem mais me lembro.
de ti jamais me esqueço.
 
 
4.
fim do ensaio,
ausente o que é de mim.
vá.
me desfaça.
 
apague as marcas e o rastro de voltar.
silencie o sim, me diga não.
 
desculpe qualquer coisa
(mas sem perdão).
 
a mim, esse deserto que busquei.
a ti, o ver que o sonho se desfaz.
 
e só para doer, minha certeza:
te amar é vício que não deixo mais.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 22h47
[   ]




SINA

 

Não costumo tomar conhecimento
do instante futuro ou que passou,
meu momento é o lugar aonde vou
a reboque do próprio pensamento.
Sou o zero do eixo espaço-tempo,
uma idéia finita, pouca e parca,
o produto final da anasarca
numa soma de muitos em ninguém.
Tudo isso e o contrário, se convém
ser alguém que de mim não deixa a marca.

O instante que sou é o que me resta
do intervalo entre o escuro e a claridade.
Todo verso que escrevo é falsidade,
menos esse, o terceiro, que me atesta.
À mentira, saúdo e faço festa.
A verdade não passa por meu crivo.
Se encarar-me de frente não cultivo,
é porque de soslaio mais me enxergo.
Em verdade, à verdade não me envergo,
se me nego, ao menos, sobrevivo.

Minha sina é de ser o meu contrário:
anti-próton, anti-elétron, anti-matéria.
Preferir-me na forma deletéria
de um alguém totalmente refratário.
Olho a mim e me digo: esse otário!
um bufão para o riso da canalha,
que, há muito, perdeu-se na batalha
intentada na busca de si mesmo.
Viva assim: essa face, à toa, a esmo.
Morra assim: essa face, tua mortalha.

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 10h12
[   ]




ESSE VERBETE DE REFERÊNCIA


(ou: porque fratura não se expõe impunemente)

não era Donne em versos indo para o leito,
tampouco Caetano ali cantava,
mas Ela, misturando os dois, dizendo:
"quando ele sobre mim e dentro dança lento",
e eu, que já nem sei se lento ou não nela dançava,
sei que mais dentro (sob ou sobre?) me deixava.

ao lado a lingerie recém-comprada
e ainda não usada (olha a surpresa:
trazia entre os dentes e mais nada,
assim, só pele e poros, nua em pêlo),
ao lado, eu dizia, aquele mimo,
que a mão, à meia-luz, fiz que enxergasse,
lacei sua cintura e obediente
deixou (fez que deixou) que eu comandasse.
as ancas alternando ora espirais,
ora fluxos de um percurso sul e norte
— e ora tudo isso quando em 8.

sim, és linda e única e máxima e sem decência.
és meu verbete de referência,
disse.

e ela, de presente, a linda, fez
seu cabelo, todo ele em desalinho,
por campana em meu rosto:
a vida era ali dentro: cheiro e gosto.
o mundo era lá fora: burburinho.

poemas me acorriam, delirava.
sonetos nascituros declamava:

"amemo-nos do amor que mata e vive,
sem meias concessões, de tudo ou nada.
do amor do mais amado e mais amada,
que nunca, sei, tiveste e nem eu tive."

mas, não.
ali era o poema em carne viva.
ali qualquer palavra soçobrava.
teus peitos, minha boca, teus cabelos,
meu corpo inteiro entregue, tuas coxas.

amei quando disseste erguendo o queixo:
pu...
(verbete meu e referência minha,
fratura não se expõe impunemente.)
...taquepariu.

então te chamo, abraço e beijo
e em mim tu dormes.


Antoniel Campos



Escrito por AC às 06h30
[   ]




ICOSAEDRO

 

Às vezes pego e não sinto,

noutras sinto e nada pego.

Se coincide, desminto

— só sei sentir se renego.

Ao que me foge eu me apego,

o que me vem quero extinto.

Só creio no que pressinto,

ao que é de fato, sou cego.

    Às vezes sou no que minto,

    noutras sou no que me nego.

 

 

Antoniel Campos

 



Escrito por AC às 17h39
[   ]




SENHAS

 

 

Nem pergunta e nem resposta havidas,

direi sorrindo o que sei que não sinto.      

Raro minto.

Mas quando,

sempre finges que acreditas.

 

Meu sorriso é a senha que te dou,

dizendo que disfarço;

mas, como sempre,

deixarás no espaço

nossos olhos — paralelos e calados.

 

Após breve silêncio,

inventarás algum tema,

em sutil descarte.

 

E eu,

que raro minto,

inventarei outra senha.

 

Até novo silêncio.

Até novo descarte.

 

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 10h06
[   ]




MATURESCENTE


Vieste, após ser tantas, enfim, ser tu somente.
E me presenteaste, assim, tão de surpresa,
que eu não percebi
tu sempre em mim presente.

(Nem sequer eu poderia.)

Chegaste em minha vida
quando eu pouco a possuía,
e tu adolescias
e eu adolescendo,
e éramos, nós dois, em tantos eus,
que nos víamos em muitos,
mas quase nunca em nós.

(E me surges, assim, tão de repente,
assim, tão diferente.)

Foste, sempre, a única de mim
e eu de ti apenas,
mas como se não fôssemos de nós,
dois elos que unidos se deixaram
e pouco se tocaram.

(E me tomas, assim, tão entranhada,
assim, amalgamada.)

Tu sempre me amaste e pouco me disseste,
pois amor também precisa ser falado,
mormente quando início,
nos mínimos indícios,
em tudo registrado.

(E hoje, que me amas, assim, tudo te atesta,
calada e, assim mesmo, manifesta.)

Nos primeiros dias, noites, madrugadas,
teu corpo era teu verbo.
E tu te retorcias.
E tu te insinuavas.
E eu, senhor de ti, me comprazia
e te retribuía
nas vezes que te amava.

(E me vens, assim, o amor em cada gesto,
e eu te amando, assim, em todo e resto.)

Ai, que só nos bastam um e outro...
Um no outro, um no um, unos, completos.

Cuidavas do teu rosto e com tal zelo,
que te ver além do rosto eu não podia
- melhor, eu não sabia - ,
e hoje não te aflige mais a ruga.
Antes, vens a mim
e rindo, diz-me: veja...
É a deixa que me dás e não recuso.
Adivinhando o beijo,
sou dono do teu queixo:
Colhendo as tuas mãos que te pintavam,
hoje as minhas te maquiam,
somente pelo toque adstringente
e a língua que passeia, umectante.

Te sei e tu te sabes mais encanto.
Te sinto e tu te sentes mais amante.

E hoje, meu amor, que tu me tens
no tanto em que nunca me tiveste,
pois só te dei o macho que eu era,
e hoje dou-te o homem em que me acho,
não chamarei de loba,
nem te direi por fêmea,
tampouco de fatal,
mas, decerto, por teu nome
- teu nome e mulher minha - ,
e tu a mim chamando
ao nome e de teu homem.

(Te amo muito mais do que te amara
- Se é que o amor a si mesmo supera - ,
Te amo de amar tanto, que esperara
Que todo o amar possível eu já tivera.)

E me vens, assim, plena, completa,
sem chances de eu te amar pela metade,
porque tudo me chama

                                          toma
                             rapta
                                          cala
                         e clama

e arde mais a chama
do que a cama em que ardias,
e tu, plena, completa,
tanto em mim e eu não te via...

Agora tudo em mim te ama em tudo.

E amo-te nas coxas, nos cabelos, nos teus peitos.
E amo-te na alma, nos teus risos, nos teus ais.

Nos feitos, nos defeitos,
porque em tudo estás.

 

 

Antoniel Campos

 

 

 



Escrito por AC às 10h06
[   ]




SENHORA MINHA
 
 
dizer-te para sempre ao verso primo,
assim, logo de cume,
sem ver se o verso meço, pauso e rimo
como de costume.

dizer que para sempre é quase nada
— além também seria —,
e nada é toda hora já esperada
— mais esperaria —.

dizer-te, a princípio, que só vivo
porque te fazes perto.
e mesmo se distante, mais cativo
sou do que liberto.

dizer, senhora minha, em teu ouvido
que tu me tens inteiro.
e ouvir o teu dizer mais atrevido:
tu me tens primeiro.

dizer-te que me apraz os teus impulsos,
caprichos, dengos, mimos.
bem quando entrecortando teus soluços,
sem motivo rimos.

dizer tantos dizeres já não ditos,
um gesto, uma coisa amena.
aos poucos eu despi-la aos olhos fitos.
tu, mais obscena.

calar, por um momento, meus dizeres.
deixar que te reveles.
e ouvir a voz dizer nossos quereres
pelas nossas peles.

tomar, na mesma boca, bem gelado,
um seco ou um campari.
o som pouco importando: blues ou fado,
desde que não pare.

e o beijo finalmente beijo seja
— nem dado, já o era —,
num tanto que nem falta e nem sobeja,
nem se faz espera.

(...)

manhã, inda teu corpo ao meu imisso,
e tu ias e eu vinha,
a ti completamente submisso,
tu: senhora minha.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 11h35
[   ]




FAÇA ASSIM: 

 
bem antes de eu chegar, enxugue a sala:
só quadros, o tapete e as almofadas,
as flores renovadas
e um pouco de saudade.
 
e finja, à minha chegada, ar de surpresa.
me envolva, desde a porta, em seu abraço,
perceba o meu cansaço,
embora eu não esteja.
 
me leve para perto da sacada.
desligue o spot próximo à janela
e à mínima candela,
só brilhe a sua mirada.
 
e deixe umas canções no ambiente.
uns discos de vinil, balde de gelo...
alise o tornozelo
sentando displicente.
 
por fundo, os bolerinhos da Batanga,
ao chão, inda espalhados, meus sonetos,
e o seu tubinho preto
da cor da sua tanga.
 
me beije, de repente, sem aviso,
e dê para o meu beijo o seu pescoço...
na voz em tom de esforço,
me diz "eu te preciso..."
 
me engane ao dizer que eu sou o máximo,
acenda a meia-luz, apague a roupa,
arranhe as minhas coxas
e diz que eu sou seu macho.
 
e sente no meu colo, assim, no meio...
pergunte qualquer coisa... eu direi "sim".
me tire o mocassim
e dê pra mim seu seio.
 
e fique assim gemendo em trote lento,
guardando em seus afagos meu cabelo,
seu hálito a aquecê-lo
num "ai, que não agüento..."
 
e passe do trotar à galopada,
arranque meu silêncio com seus gritos,
me chame de maldito,
e implore ser amada.
 
e beije e gema e grite e trema e goze...
e que não fique nada nos ouvidos,
além desses gemidos
do arfar de nossas vozes...
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 08h21
[   ]




TU NÃO CABES NUM POEMA
 
amiga,
tu não cabes num poema.
esse dou a quem manda meu orgulho.
ali os versos são medidos, são de propósito,
mas tu me dás o verso inesperado.
assim me apraz,
assim eu gosto.
me conversas, te converso,
dizes coisas tuas e me levas coisas minhas,
assim, sem que um peça, sem que o outro se obrigue.
 
se a esse porto nos foi fácil a atracação,
dizer que não é escusado,
porque sabes que não.
muitas vagas e tormentas,
vírgulas e reticências,
pontos de interrogação
—areia, pedra e cimento—,
fizeram esse, teu e meu, nosso momento,
onde um —capricho do acaso, sabe do outro.
 
se nesse porto faz-se aconchegante o cais,
dizer que sim é redundante,
porque sabes que sim.
risos recortando papos sérios,
e aquela saudade de ouvir
quando há pouco já ouvidos mutuamente
—areia, pedra e cimento—,
fazem esse, teu e meu, nosso momento,
onde um —não por acaso, cuida do outro.
 
mas dizia que não cabes num poema.
não porque os faço com compasso,
tiro o prumo, ponho esquadro e tudo mais.
não.
 
porque és sublime.
 
e porque és sublime,
dou-te as mãos que escrevem os poemas.
os olhos que os lêem.
os ouvidos que ouvem os poemas ainda no devir.
dou-te o cheiro dos poemas.
e os lábios que os dizem.
 
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 01h49
[   ]




EU SOU UM BOBO PARA TE QUERER
 
                                       (ouvindo " I'm a fool to want you"
                                                 —Billie Holiday)
 
Pois há distância e beijo a tua pele.
Se és espera, roço o teu perfume.
Tu em silêncio, tu meu air nouvelle.
És todo trago, quer eu beba ou fume.
 
Porque tu queres que eu me revele
e eu que sou bobo, falo de ciúme...
ai, que um "te quero!" calado nivele
o que eu não disse ao que me resume:
 
Amo-te imenso e amo-te aos gritos!
em Book Antiquas, em 12, em Negritos,
e em qualquer canto que caiba eu dizer.
 
Mas há distância, há trago e há espera,
fora o silêncio que me desespera
— sou mesmo um bobo para te querer.
 
 
Antoniel Campos


Escrito por AC às 21h31
[   ]




DANCE COM ELA.

dance comigo, disse. não convém que dancemos, disse. e de súbito vi passar na minha frente, feito tela de cinema, o quanto e quantas vezes a olhei, na distância apropriada e que pertine olhar uma amiga. e ali, convite feito, desfeitos os senões —se é que haviam —, ouvíamos "Deslizes", e eu me via nas vezes que em deslizes te mirava: ora a roupa que vestias, ora a meia que usavas. não raro, e de propósito, parelho eu a ti me perfilava, a ver,melhor, sentir, qual perfume que teu corpo perfumava, e tudo sem que tu me percebesses, talvez porque nem eu me percebia. e quantas, quantas vezes eu trazia a imagem —não! —a textura do negror dos teus cabelos, fio a fio cintilando quando andavas. penso que os sentia, envoltos, deslizando em minhas mãos, que nunca em teu pescoço repousaram. o teu convite feito e eu a mil... num tanto que pensei que me traía, ao mirar-te a silhueta, sorvendo do teu colo a orografia. melhor foi perceber que disfarçavas, fingindo que não via que eu te olhava, ou, até, que te queria. e quando mal eu disse "não convém...", disseste, me sorrindo: "é só essa". e dessa se fez outra e dessa outra, outra mais e, verdade seja dita, uma, duas, três ou quatro, tanto faz. conveio dançar tudo que viesse: o que eu não pensava que pensava, disse ali, a ti e a mim, sem que dissesse.

 

Antoniel Campos



Escrito por AC às 09h41
[   ]




quando me comeste
de uma forma como nunca em mim fizeste
ouvi no imperativo os verbos mais sagrados
        vem  sobe  encaixa  mete  fode
despossuí-me das rédeas que trazia
no máximo fazia
o mínimo necessário
        em ti me dissolvia
        em ti me misturava
e tu senhora e ama
da cama e do momento
nos volteios que me impunha o teu desejo
deste-me à língua a tua pele
toda ela  toda líquida  toda nua
levaste as minhas mãos à cabeceira
e no transe hipnótico provocado
juro que senti as mãos atadas
pedias — ou mandavas — que eu gritasse
e eu de olhos fechados sussurrava
        meu amor
à peça última que inútil te vestia
— um meia-taça já nos ombros derreado —
levaste à minha boca
e tal como crisálida
dele tu saíste
deixando-o em mim como mordaça
        me abraça meu amor, disse, me abraça
subias e descias no compasso certo
sabias e dizias os verbos sagrados
        vem  sobe  encaixa  mete  fode
e naquela vez  per la prima volta
chorei de gozo
quando me comeste
 
 
antoniel campos


Escrito por Antoniel Campos às 09h57
[   ]




PÊLOS

Macia selva que o teu corpo tapeteia.
Fina ramagem onde o toque se aveluda.
Vaivém de vento que penteia e despenteia.
Sensível manta que te cobre e te desnuda.
 
Pouso de face — a tua face — em minha face,
passando, aos poucos, a carinhos circulares.
Corta o silêncio abafadiço roçar: dá-se
a sinfonia dos murmúrios capilares.
 
Miro a penugem que recobre a tua orelha,
e os meus ouvidos, feito dedos, passam leves.
Cílio teus cílios, sobrancelho a sobrancelha,
e um humm e um ai e um ai e um humm sussurram breves.
 
Plumagens raras — tua nuca envolta em rama.
O meu pescoço quer o teu e tu mo encostas.
Tu te declinas à maneira de quem chama.
Nas mãos reversas sei da relva em tuas costas.
 
O que me é tátil à minha boca ora transfiro,
visto que assim, se sei do toque, sei do gosto.
E mais eu sei se pela boca te respiro,
pois menos sei qual do teu pêlo me é posto.
 
Pêlos que eu gosto: os que cercam teus mamilos,
onde em percursos labiais circunavego.
Tal o prazer tê-los assim, assim senti-los,
que a minha boca no teu seio às vezes nego.
 
Pêlos que eu amo: os da barriga, feito seta,
que a boca assanha indo e vindo ao teu umbigo.
Como uma onda, o teu quadril se me projeta,
surfo teu ventre e nos teus pêlos eu prossigo.
 
Pêlos que eu quero: os teus pêlos inguinais,
onde, bem sei, se me demoro, tu te adias.
Desses eu passo a outros pêlos, capitais,
e em tais arranho a minha barba de dois dias.

Antoniel Campos



Escrito por Antoniel Campos às 11h58
[   ]


[ ver mensagens anteriores ]


 
Meu perfil
BRASIL, Nordeste, NATAL, Homem, de 36 a 45 anos, Arte e cultura, - poesia poesia poesia -antonielcampos@uol.com.br
Histórico
  01/06/2008 a 30/06/2008
  01/08/2007 a 31/08/2007
  01/04/2007 a 30/04/2007
  01/03/2007 a 31/03/2007
  01/02/2007 a 28/02/2007
  01/01/2007 a 31/01/2007
  01/12/2006 a 31/12/2006
  01/11/2006 a 30/11/2006
  01/10/2006 a 31/10/2006
  01/08/2006 a 31/08/2006
  01/05/2006 a 31/05/2006
  01/04/2006 a 30/04/2006
  01/03/2006 a 31/03/2006
  01/07/2005 a 31/07/2005
  01/06/2005 a 30/06/2005
  01/05/2005 a 31/05/2005
  01/04/2005 a 30/04/2005
  01/03/2005 a 31/03/2005
  01/02/2005 a 28/02/2005
  01/01/2005 a 31/01/2005
  01/12/2004 a 31/12/2004
  01/11/2004 a 30/11/2004
  01/10/2004 a 31/10/2004
  01/09/2004 a 30/09/2004
  01/03/2004 a 31/03/2004


Outros sites
  a arte de beth almeida
  a tríade (nálu nogueira)
  abrindo janelas (saramar)
  agrestino (manoel carlos)
  alicerces (helena monteiro)
  almanua
  as cartas de elise
  as musas esqueléticas
  baby lónia (mjm)
  confissões de um viajante (ilídio soares)
  eugenia in the meadow (silvia chueire)
  faca de fogo (mario cezar)
  la vie en blues (felipe k.)
  linha de cabotagem (helena monteiro)
  lendo e sonhando (marcia)
  loba
  mar da poesia (jeanete ruaro)
  meu porto (míriam monteiro)
  mudança de ventos (márcia maia)
  nocturno com gatos (soledade santos)
  noites em claro (benno)
  poesia em movimento (weder soares)
  poesia sim (lau siqueira)
  ponto gê (geórgia)
  pretensos colóquios (dora vilela)
  proseando com mariza (mariza lourenço)
  rasuras (ana peluso e mario cezar)
  retalhos e pensamentos (ariane)
  sou o que sinto (Valéria)
  tábua de marés (márcia maia)
  textura (valéria tarelho)
  umbigo do sonho (adelaide amorim)
  voando pelo céu da boca (dira vieira)
  zênite (adriana zapparoli)
  zumbi escutando blues (linaldo guedes)



O que é isto?