 |
|
|
Se é no fim ou no início,
faço, de início, ser fim;
e nesse fim quero início,
só pra fazer outro fim.
Dá-me prazer cada fim,
bem mais que qualquer início.
Sou assim desde o início,
pois desde o início sou fim.
Só sou dúvida no início,
sou só certeza no fim.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 17h49
[ ]
|
Se digo “é isso”, não sei
se é isso mesmo que é isso,
pois pode ser — bem o sei,
só parecido com isso.
Mas mesmo não sendo isso,
ou seja, é isso e eu sei,
digo sempre que não sei
(nem sei por que digo isso...)
e por que isso? ... já sei!
Aliás, não sei. É isso.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 11h16
[ ]
|
Em um eu sinto o buscar-se;
noutro, nada além do ir-se.
Naquele, o multiplicar-se;
nesse, o afã de dividir-se.
Um inteira-se ao partir-se,
faz do fim o eternizar-se;
se um eu só é ao dar-se,
outro o é ao consumir-se.
Um é do outro o disfarce,
se o outro em um traduzir-se.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 12h21
[ ]
|
Sou mais versão do que fato,
bem mais talvez que decerto;
indecifrável retrato,
num álbum jamais aberto.
Nunca fui Sol, só deserto.
Só fui supérfluo e aparato.
Trago um discurso barato
onde me finjo liberto.
Solenemente abstrato,
sou bem mais longe que perto.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 00h31
[ ]
|
Era pra ser de repente,
sem que se visse e escutasse;
passasse em quase tangente,
bem rente, mas não tocasse.
Melhor se fora fugace
— prelúdio pra quando ausente —
restasse a voz reticente
(no benefício do impasse).
Era pra ser, tão-somente,
meu rosto sem tua face.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 20h59
[ ]
|
Sempre dói mais o que invento,
do que de verdade sinto.
Esse, porque sei momento;
aquele, em dobro, pois minto.
Dói, porque, falso, consinto
que seja dor, sendo alento.
Finjo na calma um tormento
que nele próprio desminto,
pois, se disfarço, acrescento
uma dor que sequer pressinto.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 08h39
[ ]
|
Pouco importa poente ou se nascente,
se cavalgo a poeira ou piso o céu,
vou no rumo que aponta para o léu,
sigo os passos que deixo à minha frente.
Ser ou não é de todo indiferente,
aprendi a cunhar no azar a sorte,
quando sei-me por fraco, finjo o forte,
eu sou eu quando um outro eu invento,
cavaleiro das nuvens me apresento,
dia e noite ao sabor do vento norte.*
Antoniel Campos
* mote tomado emprestado daqui:
Escrito por AC às 17h37
[ ]
|
MEU CANTO
Meu canto eu invento inteiriço e pedaço,
no espaço que é disso: o cinzento — se tanto.
Fracasso o feitiço, alimento de pranto,
enquanto acrescento sumiço e cansaço.
Transplanto o momento se omisso lhe traço,
aumento o quebranto e desfaço o seu viço,
tormento o acalanto, me enlaço e me enliço,
me enguiço e me amasso e me planto no vento,
cobiço o estilhaço por manto e ungüento
no intento de um canto onde nasço demisso.
Rebento esse canto e renasço remisso
e nisso me embaço — no entanto a contento,
maciço mormaço de espanto aparento
e atento adianto meu passo enfermiço.
O alento suplanto e em bagaço aterrisso,
decanto o andamento e espreguiço o compasso,
o canto que eu tento é só isso: erro crasso,
refaço o serviço se isento me encanto,
no abraço postiço apresento o não-canto
que eu canto e me ausento e permisso me faço.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 05h42
[ ]
|
gosto de ti porque tu te gostas do jeito que tu és porque não te comparas nunca te desesperas não te lamentas ante o tempo inexorável antes sabes nele voltar se for o caso e sem constrangimento te buscas naquela que tu eras e ressurges com mais de ti em ti: aquela que tu foste e que gostaste de o ser nessa que és agora somada do melhor de ti gosto de ti porque tu me gostas do jeito que eu sou porque não me comparas nunca me desesperas não me lamentas ante o tempo inexorável antes sabes nele me fazer voltar como é o caso e sem constrangimento me buscas e me mostras naquele que eu era e me gostava e me gostavas gosto de ti porque tu sabes desses caminhos de ir e vir onde não há rastros apenas a colheita do que somos gosto de ti que de ti gostas e me gostas no meu jeito de gostar de ti e de mim Antoniel Campos
Escrito por AC às 09h55
[ ]
|
Com quatro segmentos similares
e vértices em ângulos de noventa,
estando num só plano (coplanares),
a forma de um quadrado se apresenta.
Com a bissetriz, dois ângulos de quarenta
e cinco se formam. Triangulares
agora, cada parte em si ostenta
os seus catetos perpendiculares.
Cada lado tem área de cinqüenta
por cento do quadrado e singulares
propriedades, o que mais aumenta
o prazer de ver soltos pelos ares
um todo que em dois se fragmenta:
par e ímpar, o uno em dois lugares.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 08h42
[ ]
|
ALFABETO
Inexato objeto deixo escrito,
esquisito, incorreto e caricato;
sem extrato, abjeto e contradito,
em conflito e em completo anonimato.
De formato maldito o seu projeto,
dialeto interdito no palato,
seja hiato o seu grito e o seu trajeto
incompleto e ao finito cognato.
Pois vomito no prato em que eu habito,
no não-dito e abstrato me concreto,
no que eu veto retrato o que acredito.
Circunscrito, sem tato e circunspeto,
rarefato, sem teto e adstrito,
seja exato em seu rito esse alfabeto.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 16h05
[ ]
|
O passo avanço lasso e movediço
(desperdiço o feitiço do cansaço).
Aterrisso, me enguiço e me embaraço.
Sou crasso, sou pedaço e sou sumiço.
Fronteiriço ao postiço, sou bagaço
do aço onde me caço (em vão) maciço.
Abraço em meu regaço o compromisso
que eu cobiço (é cediço): ser palhaço.
E escasso e em descompasso eu perca o viço
do noviço que, omisso, perde o traço,
e almaço um mero maço reste disso.
Pois é nisso que atiço e ergo o braço:
me enlaço, me traspasso e, insubmisso,
inteiriço, me iço e me renasço.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 22h58
[ ]
|
Nesse espaço inexiste luz e fala,
o seu tempo é estático e indefinido,
seu formato é de nunca concebido
e um aroma de frio se lhe exala.
Nada fixa e tudo lhe resvala,
tem seu sim quando um não lhe tangencia,
não diz nada e de nada se anuncia,
traz em si tudo o quanto não tem nome,
regurgita esse nada e se consome,
só, então, feito nada, se inicia.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 19h46
[ ]
|
Necessário se faz que se comece
de uma forma qualquer, desde que urgente,
e que finde também tão de repente
que um plural nem pergunte por seu S.
O que é, com o que é, é o que parece
(ninguém vai perceber), e Inês é morta.
Nada diga de nada. Nada importa.
E da porta, dispare: "Quem me visse
fazer arte com aquilo que eu não disse,
me dirá um inventor!". E feche a porta.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 21h23
[ ]
|
Eu é quando nada resta,
quando tanto faz o rosto,
se nada escrito na testa,
se todo mês é agosto.
Sou quando sou meu oposto
e tudo em mim me contesta.
Só sou quando nada presta
e se só vale o suposto.
Eu é quando finda a festa,
e o beijo, se perde o gosto.
Antoniel Campos
Escrito por AC às 22h26
[ ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |